A comunicação científica costuma ocupar lugar de destaque nas discussões sobre inovação, integridade, transparência e acesso aberto. Menos frequente, porém, é a reflexão sobre o impacto ambiental da infraestrutura que sustenta esse ecossistema. Enquanto pesquisadores medem emissões de carbono em diferentes setores da economia, uma pergunta permanece relativamente ausente do debate editorial: qual é a pegada de carbono de um periódico científico?
A resposta não é simples. Diferentemente de uma indústria, cuja produção pode ser associada a processos físicos bem definidos, um periódico depende de uma cadeia distribuída de atividades digitais e presenciais. Manuscritos circulam entre autores, revisores e editores em diferentes países; arquivos permanecem armazenados durante anos; plataformas operam continuamente em servidores espalhados pelo mundo; ferramentas de inteligência artificial realizam análises cada vez mais sofisticadas. Cada etapa consome água, energia e recursos computacionais cuja dimensão raramente aparece nos relatórios institucionais.
A expansão da ciência aberta amplia essa discussão. O compartilhamento de bases de dados, códigos, imagens, vídeos e materiais suplementares fortalece a reprodutibilidade e a transparência da pesquisa. Ao mesmo tempo, multiplica o volume de informações que precisam ser armazenadas, processadas e preservadas por décadas.
Essa realidade não constitui um argumento contra a ciência aberta. Pelo contrário. O desafio é reconhecer que transparência e sustentabilidade precisam caminhar juntas. Uma infraestrutura científica mais aberta também deve buscar maior eficiência ambiental.
Outro componente recente é a incorporação crescente da inteligência artificial aos fluxos editoriais. Ferramentas de revisão linguística, detecção de plágio, identificação de manipulação de imagens, classificação de manuscritos e apoio às decisões editoriais dependem de grande capacidade computacional. Modelos avançados de IA exigem centros de processamento com elevado consumo de energia e sistemas sofisticados de resfriamento.
O impacto não está apenas no treinamento desses modelos, mas também em seu uso cotidiano. Milhares de consultas realizadas diariamente por periódicos, autores e revisores representam uma demanda energética que tende a crescer. Ainda assim, abandonar essas tecnologias não significa, necessariamente, uma solução sustentável. Em muitos casos, a automação reduz retrabalho, acelera fluxos editoriais e otimiza recursos. O balanço ambiental depende menos da tecnologia em si do que da forma como ela é utilizada.
Impresso X digital
Outro tema recorrente envolve a comparação entre publicações impressas e digitais. Durante anos consolidou-se a percepção de que migrar para o ambiente eletrônico eliminaria praticamente todos os impactos ambientais de um periódico. A realidade é mais complexa.
A impressão envolve consumo de papel, tinta, transporte e logística. Já a publicação digital depende de data centers, redes de comunicação, equipamentos eletrônicos e armazenamento permanente. Embora o formato digital frequentemente apresente vantagens ambientais, isso não significa que seu impacto seja desprezível.
À medida que coleções inteiras permanecem disponíveis online por tempo indeterminado, cresce também a necessidade de infraestrutura para garantir preservação digital, redundância de servidores e cópias de segurança. A permanência do conhecimento científico na Internet tem um custo energético que raramente entra nos cálculos da comunicação científica.
Diante disso, algumas iniciativas concretas começam a ganhar espaço entre editoras, universidades e organizações de pesquisa: migração para provedores de hospedagem com energia renovável, políticas mais criteriosas de armazenamento e preservação de dados, uso estratégico de IA priorizando aplicações com retorno editorial claro, otimização de arquivos suplementares e inclusão de indicadores ambientais nas estratégias de governança.
Essas medidas dificilmente eliminarão a pegada de carbono da publicação científica, mas contribuem para torná-la mensurável. Afinal, aquilo que pode ser medido também pode ser gerenciado.
Talvez o maior desafio seja cultural. Durante décadas, os indicadores editoriais concentraram-se em métricas como fator de impacto, tempo de publicação, citações e downloads. A sustentabilidade ambiental permaneceu praticamente fora desse conjunto.
À medida que universidades, agências de fomento e instituições de pesquisa incorporam critérios relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, parece natural que a comunicação científica acompanhe esse movimento. Um periódico comprometido com a produção de conhecimento também pode assumir responsabilidade pelos recursos necessários para disseminá-lo.
Ainda não existem metodologias consolidadas para calcular a pegada de carbono de uma revista científica. Mas a falta de métricas não significa ausência de impacto. Talvez tenha chegado o momento de aplicar à própria atividade editorial o mesmo rigor analítico exigido das pesquisas que publica. Produzir conhecimento para um futuro sustentável também implica compreender, medir e reduzir os impactos ambientais do caminho percorrido até sua disseminação.
Palavra do CEO
“A ciência mede tudo, exceto o custo ambiental de se medir. Na Zeppelini, começamos a questionar nossa própria cadeia: os servidores que usamos, as ferramentas que adotamos, o volume de dados que armazenamos para nossos clientes. Não temos respostas prontas, mas a pergunta já não pode ser ignorada. Minha recomendação aos editores: incluam sustentabilidade ambiental na próxima revisão da sua política editorial. Não como greenwashing, mas como critério real de governança. O periódico que exige rigor científico de seus autores precisa aplicar o mesmo rigor à sua própria operação.”
Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers
_____
(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
Imagem: Stockboy / Magnific