O aumento da demanda por disseminação rápida do conhecimento científico impulsionou o crescimento da presença dos periódicos com modelos de publicação fast-track. Eles oferecem uma alternativa atrativa para pesquisadores que buscam agilidade na divulgação de resultados, seja para atender prazos institucionais, reforçar o impacto acadêmico ou contribuir para avanços científicos em tempo real, especialmente em áreas como saúde, tecnologia e ciências ambientais.
No entanto, apesar dos benefícios evidentes, a publicação acelerada traz riscos que podem comprometer a qualidade e credibilidade científica. A principal questão que emerge, portanto, é: como equilibrar agilidade com o rigor necessário na revisão por pares?
Os modelos fast-track ganharam notoriedade principalmente durante emergências globais, como a pandemia de Covid-19. Naquele período, a necessidade urgente por descobertas científicas levou editoras renomadas a adotar fluxos de revisão mais rápidos.
Estudos, como o publicado na Nature (Horbach, 2020) mostraram que a média de tempo para publicação de artigos relacionados à Covid-19 caiu drasticamente, situação crucial para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos eficazes.
Além disso, a publicação rápida beneficia pesquisadores em busca de visibilidade, especialmente em áreas altamente competitivas. Acelerando o processo editorial, é possível garantir que descobertas inovadoras cheguem ao público antes que percam relevância. Para jovens pesquisadores, isso significa avanços significativos na carreira, contribuindo para a obtenção de bolsas e reconhecimento acadêmico.
Apesar das vantagens, o modelo fast-track levanta preocupações sérias quanto à qualidade e integridade científica. Processos de revisão por pares são, por natureza, rigorosos e demandam tempo para assegurar que metodologias, análises e conclusões estejam adequadas. Ao acelerar esse processo, corre-se o risco de falhas passarem despercebidas.
Estudo publicado por Kun (2021) no Journal of Scholarly Publishing indicou que artigos submetidos a revisões rápidas apresentaram índices mais elevados de retratação.
Outro risco está relacionado à revisão superficial. Revisores podem sentir-se pressionados a cumprir prazos apertados, comprometendo análises detalhadas. Isso pode resultar em publicações com dados incorretos, interpretações frágeis ou, pior, pesquisas com práticas questionáveis. Esses problemas não apenas minam a credibilidade do periódico, mas podem afetar negativamente a confiança da sociedade na ciência.
O desafio, portanto, está em adotar estratégias que permitam a agilidade sem comprometer o rigor científico. Uma abordagem eficaz é a utilização de revisores especializados em fast-track, com experiência em revisões de alta qualidade dentro de prazos reduzidos.
Além disso, o uso de tecnologias de inteligência artificial pode acelerar o processo inicial de triagem, identificando potenciais problemas de plágio, erros metodológicos e inconsistências nos dados.
Outra estratégia é a adoção de revisões em camadas. O periódico pode publicar versões preliminares do artigo com o rótulo de pré-print, permitindo que a comunidade científica contribua com críticas e sugestões antes da publicação definitiva. Esse modelo colaborativo, já adotado em plataformas como arXiv e bioRxiv, oferece agilidade e, ao mesmo tempo, mantém um ambiente de controle de qualidade robusto.
Em verdade, o crescimento dos periódicos fast-track reflete a necessidade contemporânea por ciência ágil e acessível. No entanto, a rapidez não pode ser alcançada à custa da qualidade. Garantir um equilíbrio entre agilidade e rigor requer investimentos em processos editoriais eficientes, tecnologias inovadoras e revisões colaborativas.
Assim, será possível colher os benefícios da publicação acelerada sem renunciar à credibilidade científica, assegurando que o conhecimento produzido seja não apenas veloz, mas também confiável e de alto impacto.
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