O sistema de peer review está perto do esgotamento? – Et al. #376

O sistema de revisão por pares permanece como um dos pilares da comunicação científica moderna. Embora frequentemente criticado por sua lentidão, subjetividade ou inconsistências, continua sendo o principal mecanismo de validação da qualidade, da originalidade e da relevância dos resultados de pesquisa.

No entanto, um fenômeno vem se intensificando: a crescente dificuldade dos periódicos em encontrar revisores dispostos e qualificados para avaliar manuscritos. Por Isso, a pergunta é inevitável: o modelo tradicional de peer review está se aproximando de um ponto de esgotamento?

A percepção de crise não é apenas anedótica. Há relatos sobre um aumento contínuo no número de convites recusados ou simplesmente ignorados. Em muitos casos, são necessários dez, 15 ou até mais convites para garantir dois pareceristas para um único artigo. O que antes era uma etapa relativamente previsível do fluxo editorial tornou-se um dos principais gargalos da publicação científica.

Parte desse cenário pode ser explicada pela expansão sem precedentes da produção científica global. Nas últimas décadas, o número de periódicos ampliou-se significativamente, acompanhado pelo aumento das submissões impulsionado por políticas de avaliação acadêmica, internacionalização da pesquisa e pressão institucional por produtividade. O resultado é uma demanda crescente por revisões, sem que tenha ocorrido um acréscimo proporcional da base de especialistas disponíveis para realizá-las.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores enfrentam uma sobrecarga cada vez maior de responsabilidades. Além das atividades de pesquisa, ensino, orientação, gestão universitária, captação de recursos e produção científica própria, espera-se que contribuam voluntariamente para a revisão de artigos. Em um ambiente acadêmico marcado por metas de desempenho e restrições de tempo, aceitar convites para revisar manuscritos frequentemente deixa de ser prioridade.

O paradoxo é evidente: todos dependem do sistema de revisão por pares para publicar seus próprios trabalhos, mas cada vez menos pesquisadores dispõem de tempo para sustentar o funcionamento desse mesmo sistema. O resultado aparece nos indicadores editoriais. Diversos periódicos registram aumento nos tempos médios de avaliação, especialmente em áreas de alta produção científica, como medicina, ciências da vida, engenharia e ciências sociais aplicadas. Em alguns casos, o período entre submissão e primeira decisão ultrapassa vários meses, comprometendo a agilidade da comunicação científica.

Fadiga dos revisores

A situação é agravada por outro fenômeno relativamente recente: a fadiga dos revisores. Muitos especialistas recebem dezenas de solicitações por mês, provenientes de diferentes periódicos. Como consequência, tendem a selecionar apenas convites diretamente relacionados às suas linhas de pesquisa, provenientes de revistas reconhecidas ou vinculadas a redes profissionais de confiança. Manuscritos altamente especializados ou periódicos emergentes enfrentam dificuldades ainda maiores para recrutar avaliadores.

Diante disso, cresce o interesse por modelos alternativos de revisão. O peer review aberto, por exemplo, busca aumentar a transparência ao tornar públicos os pareceres e, em alguns casos, a identidade dos revisores. Já os sistemas de revisão pós-publicação transferem parte da avaliação para a comunidade científica após a divulgação do artigo. Há ainda iniciativas colaborativas que distribuem o trabalho de avaliação entre grupos mais amplos de especialistas.

Embora essas propostas tragam contribuições importantes, nenhuma delas eliminou completamente os desafios estruturais da revisão científica. Em essência, todas continuam dependendo de recursos cada vez mais escassos: o tempo e a expertise dos pesquisadores.

Para tentar reverter esse quadro, uma ideia frequentemente debatida é a remuneração dos revisores. Defensores argumentam que o pagamento reconheceria formalmente uma atividade essencial para a ciência e poderia aumentar a disponibilidade de avaliadores. Críticos, por outro lado, alertam para possíveis conflitos de interesse, elevação dos custos editoriais e criação de incentivos que priorizem volume em detrimento da qualidade. Além disso, muitos periódicos, especialmente aqueles mantidos por universidades e sociedades científicas, simplesmente não dispõem de recursos financeiros para implementar esse modelo.

Talvez a discussão mais promissora atualmente envolva o uso de inteligência artificial como ferramenta de apoio ao processo de revisão. Sistemas baseados em IA já são capazes de identificar inconsistências metodológicas, verificar referências, detectar possíveis problemas estatísticos, apontar similaridades textuais e auxiliar na análise preliminar de manuscritos. Em teoria, essas tecnologias podem reduzir parte da carga operacional dos pareceristas e permitir que concentrem seus esforços na avaliação crítica do conteúdo científico.

Entretanto, a adoção dessas ferramentas exige cautela. A revisão por pares não se limita à verificação técnica de elementos formais. Ela envolve julgamento científico, interpretação contextual, compreensão de nuances metodológicas e capacidade de avaliar a contribuição intelectual de um estudo para determinada área do conhecimento. Essas dimensões permanecem, ao menos por enquanto, essencialmente humanas.

Talvez o maior risco não seja o colapso imediato do peer review, mas a insistência em tratar seus problemas como dificuldades temporárias. A crise dos revisores parece refletir uma transformação mais profunda do ecossistema científico, no qual os incentivos à produção cresceram mais rapidamente do que os mecanismos de sustentação da qualidade.

O futuro da revisão científica provavelmente não dependerá de uma única solução. Será resultado da combinação de novas tecnologias, reconhecimento institucional do trabalho dos revisores, modelos mais transparentes de avaliação e mudanças nos critérios que regem a produtividade acadêmica. Afinal, se a ciência depende da revisão por pares para conservar sua credibilidade, preservar os revisores talvez tenha se tornado uma das tarefas mais urgentes da própria comunidade científica.

PALAVRA DO CEO:

“O peer review não está apenas sobrecarregado. Ele está mal gerenciado. O Global State of Peer Review já documentou o que editores sentem na prática: mais recusas, prazos mais longos, revisores cada vez mais seletivos. Sim, o sistema está perto do esgotamento, mas não do colapso. A diferença entre os dois está na qualidade da gestão editorial. Periódicos com processos bem estruturados continuam encontrando revisores. Os que não têm processo culpam a crise. Minha recomendação: antes de debater IA ou remuneração, auditem o próprio fluxo.”

Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers


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