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O periódico científico do futuro será uma comunidade? — Et al. 387

Por Zeppelini Editorial 19 out 2026 7 min de leitura
O periódico científico do futuro será uma comunidade? — Et al. 387

Durante muito tempo, a função de um periódico científico esteve bem delimitada: receber manuscritos, submetê-los à avaliação por pares, selecionar os trabalhos aprovados e publicá-los. O artigo era o centro da operação, reunindo em torno dele autores, revisores, editores e leitores.

Esse modelo continua essencial. A mudança está no que acontece antes e depois da publicação e, principalmente, na forma como o conteúdo passa a circular entre diferentes públicos.

Newsletters, podcasts, webinars, redes sociais, blogs e eventos vêm ocupando espaço na comunicação de periódicos científicos. Em alguns casos, a revista deixou de ser apenas o local de publicação de artigos para funcionar também como ponto de contato entre pesquisadores, estudantes, revisores e profissionais de uma determinada área.

Não é uma hipótese distante. O movimento já aparece em periódicos e plataformas consolidados, que passaram a distribuir pesquisas em formatos diferentes daqueles tradicionalmente associados à publicação acadêmica.

A Nature, por exemplo, mantém a Nature Briefing, newsletter distribuída diariamente com notícias, análises e conteúdos selecionados para a comunidade científica. A publicação também produz podcasts relacionados a pesquisas publicadas e a temas científicos de interesse mais amplo.

Na medicina acadêmica, além dos artigos, o periódico Academic Medicine, pertencente à Association of American Medical Colleges, mantém podcast, webinars, blog, redes sociais e coleções temáticas. O podcast, lançado em 2016, alcança dezenas de milhares de reproduções anuais, enquanto a série de webinars iniciada em 2023 já reuniu milhares de participantes.

A Oxford Academic também reúne podcasts associados a dezenas de periódicos de diferentes áreas. O áudio, nesse caso, deixou de ser uma experiência isolada para integrar a comunicação de parte das publicações.

Esses exemplos ajudam a separar duas práticas que podem parecer semelhantes: divulgar artigos e construir relacionamento.

Um alerta sobre a publicação de um novo trabalho cumpre uma função informativa. Já uma newsletter que contextualiza pesquisas, identifica tendências e seleciona conteúdos exerce outro papel. Um podcast com pesquisadores, um webinar com participação dos leitores ou um evento que aproxima autores e profissionais ampliam ainda mais os pontos de contato.

Diferença está na continuidade

Um artigo tem data de publicação. A comunidade, não necessariamente. Uma pesquisa publicada hoje pode gerar uma entrevista amanhã, ser discutida em um webinar na semana seguinte, aparecer em uma newsletter, provocar comentários nas redes sociais e, mais tarde, integrar uma coleção temática ou servir de ponto de partida para outra pesquisa.

Esse fluxo também permite que um mesmo conteúdo seja apresentado de maneiras diferentes, sem que a publicação científica perca seu papel central. Para o leitor, a pesquisa pode chegar por uma newsletter; para outro público, por um podcast ou webinar; para um pesquisador, continuar disponível no artigo original, com seus métodos, dados e referências.

Essa dinâmica muda a relação com o leitor. Em vez de uma audiência que procura o periódico apenas quando precisa consultar um artigo, pode se formar uma base recorrente de pesquisadores, estudantes, revisores e profissionais interessados naquele campo.

Para editores e publishers, porém, ampliar os canais não é suficiente. Um podcast sem audiência, uma newsletter sem identidade editorial ou um webinar desconectado da publicação dificilmente formarão uma comunidade. Os formatos precisam responder a uma estratégia e ter relação clara com a identidade científica do periódico.

Há ainda a questão dos recursos. Manter uma relação permanente com leitores e autores exige equipe, planejamento, produção e acompanhamento de resultados. Para periódicos menores, reproduzir a estrutura de grandes publishers pode ser inviável. A lógica, entretanto, não depende necessariamente de grandes investimentos. Uma newsletter bem construída, uma conversa periódica com autores ou um encontro online podem criar pontos de contato sem exigir uma estrutura de comunicação comparável à de grandes editoras.

Também é preciso considerar o trabalho dos próprios pesquisadores. A comunicação científica não termina quando o artigo é disponibilizado. Perguntas, críticas, replicações, aplicações e novas hipóteses podem surgir depois que o trabalho se torna público. Os canais mantidos pelo periódico podem dar visibilidade a parte dessas discussões, desde que preservem os critérios editoriais e científicos da publicação.

Nesse cenário, o periódico se aproxima de uma função de mediação científica. Não substitui o artigo nem a avaliação por pares, mas cria caminhos para que o conhecimento circule por diferentes formatos e encontre novos interlocutores.

Isso pode ser particularmente relevante em áreas nas quais a produção científica precisa dialogar com profissionais que não acompanham regularmente os periódicos ou com pesquisadores em diferentes estágios da carreira. O desafio passa a ser ampliar o alcance sem transformar a comunicação em uma camada superficial sobre o conteúdo científico.

Há, portanto, um limite a preservar. Transformar uma revista em comunidade não significa convertê-la em uma plataforma de conteúdo genérico. Sua identidade científica continua sendo o principal patrimônio. Os novos formatos precisam reforçá-la, não diluí-la.

Para os próximos anos, essa pode ser uma questão central para o setor editorial científico. A qualidade, a integridade, a relevância e a visibilidade da produção continuarão determinando o valor de um periódico. Mas a capacidade de manter vínculos duradouros com autores, leitores, revisores e pesquisadores pode ganhar espaço nessa equação.

A revista do futuro pode não ser apenas aquela que publica bons artigos. Pode ser também aquela que consegue prolongar a vida editorial desses trabalhos, estimulando conversas, aproximando pesquisadores, formando novos leitores e criando oportunidades para que uma pesquisa continue circulando depois de publicada.

A questão, portanto, talvez não seja se o periódico deixará de ser uma revista. É se continuará sendo apenas uma.

Palavra do CEO

“Um periódico que publica bons artigos e some até a próxima edição está desperdiçando metade do seu potencial. Na Zeppelini, temos visto revistas com excelente conteúdo científico mas audiência estagnada justamente porque a relação com o leitor termina no momento da publicação. Newsletter, podcast, webinar: não são modismos. São canais que mantêm o periódico presente na rotina de quem importa. O segredo não está em replicar a estrutura da Nature. Está em encontrar o formato que faz sentido para a sua comunidade específica. Minha recomendação: comecem pelo mais simples. Uma newsletter mensal bem curada já cria um ponto de contato regular e custa muito menos do que parece.”

Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers

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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

Imagem: tohamina / Magnific

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