O desafio da preservação digital: quem garantirá acesso aos artigos daqui a 100 anos? — Et al. #374

Por muito tempo, a discussão sobre comunicação científica concentrou-se quase exclusivamente no ato de publicar. O artigo aceito, o fator de impacto, a indexação em bases internacionais e a visibilidade imediata tornaram-se métricas dominantes de sucesso editorial. No entanto, uma questão antes considerada de menor importância vem ganhando destaque de forma crescente: a preservação digital do conhecimento científico. Publicar é apenas o início do ciclo; garantir que esse conteúdo continue acessível em 50 ou 100 anos tornou-se um desafio estrutural para periódicos, publishers e instituições de pesquisa.

A fragilidade do ambiente digital é paradoxal. Ao mesmo tempo em que ampliou exponencialmente a disseminação do conhecimento, também o tornou dependente de infraestruturas instáveis: servidores, formatos proprietários, contratos de acesso e decisões comerciais. Diferentemente do papel, cuja degradação é lenta e relativamente previsível, o conteúdo digital pode desaparecer de forma abrupta, seja por falência de plataformas, mudanças tecnológicas ou simples descontinuidade de sistemas.

Iniciativas como o LOCKSS surgem como uma das respostas mais consistentes ao problema da preservação distribuída. O princípio é simples e, ao mesmo tempo, poderoso: múltiplas cópias de um mesmo conteúdo, armazenadas em diferentes instituições, reduzem drasticamente o risco de perda definitiva. A lógica não é apenas tecnológica, mas institucional — a preservação passa a ser uma responsabilidade compartilhada entre bibliotecas, universidades e editores.

De forma complementar, o CLOCKSS amplia esse modelo com uma governança mais estruturada entre editoras e bibliotecas acadêmicas. O sistema funciona como um arquivo escuro (dark archive), acionado apenas quando necessário, como em casos de desaparecimento do conteúdo original. Trata-se de uma espécie de “seguro coletivo” da memória científica, ainda pouco visível para muitos pesquisadores, mas crucial para a estabilidade de longo prazo da literatura acadêmica.

Estratégia arriscada

Apesar dessas iniciativas, a preservação digital ainda enfrenta uma contradição central: enquanto o ecossistema científico acelera a produção de conteúdo, a infraestrutura de preservação evolui em ritmo mais lento e desigual. Muitos periódicos, especialmente os de menor porte ou vinculados a instituições com restrições orçamentárias, ainda não possuem políticas claras de arquivamento de longo prazo. Em alguns casos, a preservação depende exclusivamente da permanência do site da revista, portanto, uma estratégia frágil e, em última instância, arriscada.

Os dados dizem tudo. Um dos levantamentos mais abrangentes foi publicado em 2024 por Martin Paul Eve, professor de literatura, tecnologia e publicação no Birkbeck College, da Universidade de Londres. Ele analisou mais de 7,4 milhões de artigos científicos com DOI. Os resultados revelaram que 27,6% dos artigos não estavam preservados em nenhum dos principais sistemas de arquivamento digital avaliados. Além disso, 32,9% dos membros da Crossref pareciam não possuir mecanismos adequados de preservação digital para seu conteúdo.

O estudo também apontou que apenas 0,96% dos editores analisados preservavam mais de 75% de seu conteúdo em três ou mais arquivos independentes, evidenciando uma fragilidade significativa na proteção do registro científico.

Outro ponto crítico é a obsolescência tecnológica. Formatos de arquivo, softwares de leitura, linguagens de marcação e até padrões de metadados mudam com rapidez. O que hoje é amplamente acessível pode se tornar ilegível em poucas décadas. Logo, a preservação não se limita a armazenar arquivos, mas a garantir sua legibilidade futura. Isso implica migração contínua de formatos, atualização de repositórios e manutenção de sistemas capazes de interpretar dados antigos.

O problema ganha contornos ainda mais complexos quando se considera a preservação de datasets científicos. A ciência contemporânea, especialmente em áreas como genômica, clima, inteligência artificial e ciências sociais computacionais, depende de volumes massivos de dados. Além de sustentarem artigos, esses conjuntos podem ser mais valiosos que a própria publicação derivada. No entanto, sua preservação exige infraestrutura robusta, padronização de metadados e, principalmente, recursos financeiros contínuos. Em muitos casos, os datasets são armazenados de forma precária ou simplesmente descartados após o término de projetos financiados.

É nesse ponto que a discussão sobre custos de manutenção se torna inevitável. A preservação digital não é um estado, mas um processo permanente. Envolve servidores redundantes, auditorias, migração de formatos, segurança cibernética e governança institucional. Diferentemente do imaginário comum de que o digital é “eterno” ou “barato”, a realidade aponta para um modelo de custo recorrente, muitas vezes subestimado por agências de fomento e instituições acadêmicas.

O dilema, portanto, não é apenas técnico, mas político e institucional. Quem deve pagar pela preservação do conhecimento científico? Os editores? As universidades? Os governos? Ou o próprio ecossistema de financiamento da ciência deveria incorporar, de forma explícita, o custo da memória de longo prazo? A ausência de uma resposta clara indica que o problema ainda não foi plenamente internalizado pela comunidade científica.

Há também uma dimensão ética pouco discutida. A perda de artigos e dados não representa somente um problema de acesso, mas uma erosão da própria continuidade do conhecimento humano. Cada conteúdo científico inacessível no futuro representa uma lacuna potencial em revisões sistemáticas, replicações e avanços teóricos. Em outras palavras, a falha na preservação digital não é neutra: ela altera o próprio curso da ciência.

Diante desse panorama, a preservação digital precisa deixar de ser tratada como uma camada invisível da publicação científica e ocupar posição central nas políticas editoriais. Não se trata apenas de garantir que artigos estejam online hoje, mas de assegurar que continuem inteligíveis, verificáveis e acessíveis daqui a um século. A ciência, afinal, não é feita tão-somente de descobertas, mas da capacidade de mantê-las vivas no tempo.

_____

(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

Imagem:  / Magnific IA

Aviso importante

A ZEPPELINI é uma editora científica com 25 anos de tradição.

Afirmamos que NÃO POSSUÍMOS QUALQUER RELAÇÃO com a empresa ZP EDITORA e que NÃO COMERCIALIZAMOS NENHUM TIPO DE ASSINATURA de revistas.

Caso receba alguma ligação em nosso nome, não efetue nenhum tipo de pagamento, pois trata-se de fraude.