Nos últimos anos, o acesso aberto deixou de ser apenas um ideal defendido por movimentos de ciência aberta e passou a ocupar o centro das políticas científicas globais. Universidades, agências de fomento e publishers têm adotado diretrizes que estimulam, ou exigem, que os resultados das pesquisas financiadas com recursos públicos estejam disponíveis sem barreiras de acesso.
Iniciativas como o Plan S, liderado pela cOAlition S, e o fortalecimento de plataformas como a SciELO evidenciam que a abertura do conhecimento já não é uma tendência emergente, mas uma transformação estrutural no sistema de comunicação científica.
Entretanto, à medida que essas políticas se consolidam, torna-se cada vez mais evidente que seus efeitos não são homogêneos entre as diferentes áreas do conhecimento. Ciências aplicadas, ciências naturais e áreas tecnológicas têm se adaptado de forma relativamente rápida aos modelos de acesso aberto, enquanto disciplinas das ciências humanas e sociais frequentemente enfrentam desafios adicionais relacionados a financiamento, estrutura editorial e modelos de publicação.
Essa assimetria revela que a discussão sobre open access não pode ser reduzida a uma questão de acesso público à informação. Trata-se também de um debate sobre sustentabilidade editorial, equidade acadêmica e diversidade epistemológica.
Custos de publicação e desigualdade disciplinar
Um dos principais pontos de tensão nas políticas de acesso aberto está relacionado aos custos de publicação, especialmente no modelo baseado em taxas pagas pelos autores ou por suas instituições. Em muitas revistas internacionais, os chamados APCs (Article Processing Charges) podem alcançar valores elevados, tornando-se viáveis principalmente para pesquisadores vinculados a instituições com forte financiamento.
Nas ciências naturais e biomédicas, onde projetos de pesquisa frequentemente incluem recursos destinados à publicação, essa estrutura tende a ser absorvida com maior facilidade. Já nas ciências humanas e sociais, onde os financiamentos são mais modestos e a cultura de publicação muitas vezes privilegia livros e capítulos de coletâneas, o pagamento de taxas pode representar uma barreira significativa.
Essa diferença cria um paradoxo: políticas desenhadas para ampliar o acesso ao conhecimento podem, inadvertidamente, restringir a participação de determinados campos acadêmicos no sistema global de publicação.
Visibilidade científica e circulação do conhecimento
Por outro lado, o acesso aberto também tem demonstrado efeitos positivos relevantes na ampliação da visibilidade científica. Artigos disponíveis gratuitamente tendem a alcançar públicos mais amplos, incluindo pesquisadores de países com menor capacidade institucional para pagar assinaturas de periódicos.
Esse impacto é particularmente significativo para áreas interdisciplinares ou aplicadas, nas quais o conhecimento pode ser utilizado por profissionais fora da academia, como formuladores de políticas públicas, gestores ou organizações da sociedade civil.
Para periódicos e universidades, a abertura amplia a circulação da produção científica e fortalece a presença institucional em bases de dados internacionais. Em muitos casos, a disponibilidade aberta também contribui para o aumento de citações e para a expansão de redes de colaboração.
No entanto, novamente surgem diferenças disciplinares. Em campos das ciências humanas, nos quais o debate intelectual frequentemente se desenvolve em formatos mais extensos e reflexivos, a simples disponibilização aberta de artigos não resolve integralmente o desafio da visibilidade. A construção de impacto nesses campos depende também de traduções, circulação internacional e estratégias editoriais voltadas para públicos diversos.
Equidade no acesso
Talvez o aspecto mais sensível do debate sobre open access seja o da equidade. O acesso aberto busca democratizar o consumo de conhecimento, mas a democratização da produção científica ainda enfrenta obstáculos.
Pesquisadores de instituições periféricas, países em desenvolvimento ou áreas com menor financiamento continuam encontrando dificuldades para arcar com custos de publicação ou para competir em sistemas editoriais altamente internacionalizados. Nesse contexto, iniciativas que combinam financiamento institucional, consórcios de bibliotecas e modelos cooperativos de publicação tornam-se fundamentais.
Experiências como a da SciELO demonstram que é possível construir modelos de acesso aberto baseados em cooperação institucional, reduzindo a dependência exclusiva de taxas cobradas dos autores. Essas alternativas ajudam a preservar a diversidade disciplinar e regional da produção científica.
Papel estratégico
Diante desse cenário, editores de periódicos e publishers enfrentam um desafio estratégico: adaptar-se às demandas crescentes por abertura sem comprometer a sustentabilidade editorial nem aprofundar desigualdades entre áreas do conhecimento.
Universidades, por sua vez, assumem papel central na construção de infraestruturas de publicação mais equilibradas. Investimentos em plataformas institucionais, apoio financeiro para publicação e políticas claras de ciência aberta podem contribuir para reduzir assimetrias entre disciplinas.
Mais do que uma mudança técnica no modelo de distribuição de artigos, o acesso aberto representa uma redefinição das relações entre produção, circulação e legitimação do conhecimento científico.
Para que essa transformação seja efetivamente inclusiva, será necessário reconhecer que as áreas do conhecimento possuem dinâmicas próprias de produção e disseminação. Políticas universais, quando aplicadas de maneira homogênea, correm o risco de ignorar essas diferenças.
O desafio para o sistema editorial científico, portanto, não é apenas tornar o conhecimento aberto, mas garantir que essa abertura seja acompanhada por condições equitativas de participação para todas as disciplinas. Somente assim o acesso aberto poderá cumprir sua promessa original: ampliar não apenas o acesso à ciência, mas também a diversidade de vozes que a produzem.
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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