Neurodiversidade, o novo desafio editorial das publicações científicas — Et al. #351

A ciência avança a partir da diversidade de perspectivas, métodos e formas de pensar. No entanto, quando se observa com atenção o ecossistema da publicação científica, especialmente seus fluxos editoriais, critérios de avaliação e padrões de comunicação, torna-se evidente que ele foi historicamente desenhado para um perfil cognitivo específico.

Autores, revisores e editores neurotípicos, com facilidade para leitura extensiva, escrita linear, interpretação implícita de normas e gestão simultânea de múltiplas tarefas, tornaram-se o padrão tácito. Esse cenário invisibiliza e, muitas vezes, exclui pesquisadores neurodivergentes, como pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e dislexia.

Discutir neurodiversidade na publicação científica não é um exercício de inclusão simbólica ou de concessão editorial. Trata-se de reconhecer que diferentes funcionamentos cognitivos fazem parte da comunidade científica e que a excelência acadêmica não é incompatível com estilos diversos de pensamento, comunicação e organização.

Ao contrário: muitos pesquisadores neurodivergentes apresentam elevada capacidade analítica, pensamento original, atenção a detalhes específicos, criatividade metodológica e persistência investigativa, sendo essas, competências centrais para o avanço do conhecimento.

Entretanto, essas potencialidades frequentemente colidem com processos editoriais pouco acessíveis. Instruções para autores extensas e ambíguas, diretrizes dispersas em múltiplos documentos, prazos rígidos e comunicação editorial excessivamente implícita representam barreiras concretas.

Para autores com dislexia, textos densos e pouco estruturados dificultam a leitura e a revisão final do manuscrito. Para pesquisadores com TDAH, fluxos editoriais longos, com múltiplas rodadas de ajustes pouco objetivas, tornam-se cognitivamente exaustivos. Para pessoas com TEA, a falta de clareza nas expectativas editoriais e nos pareceres pode gerar insegurança, ansiedade e desistência do processo de submissão.

No campo da revisão por pares, os desafios se ampliam. Revisores neurodivergentes são raramente reconhecidos como tais, e quase nunca encontram políticas editoriais que considerem suas necessidades cognitivas. A exigência de pareceres extensos, escritos em linguagem indireta ou excessivamente subjetiva, pode afastar revisores altamente qualificados, mas que se comunicam de forma mais literal ou objetiva. Além disso, a cultura editorial que associa rapidez de resposta à competência acadêmica tende a penalizar revisores que precisam de mais tempo para organização, leitura atenta ou elaboração do parecer.

Diante desse cenário, editores e publishers são chamados a repensar suas políticas não apenas sob a ótica da diversidade demográfica ou geográfica, mas também da diversidade cognitiva. Promover neuroinclusão na comunicação científica exige ações estruturais, explícitas e permanentes.

O primeiro passo é reconhecer formalmente a neurodiversidade como parte das políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) dos periódicos. Isso implica incluir o tema nos códigos de ética, nas declarações editoriais e nos compromissos institucionais das editoras científicas.

No plano operacional, a acessibilidade começa pelas instruções aos autores. Diretrizes claras, organizadas em tópicos objetivos, com linguagem direta e exemplos práticos, beneficiam toda a comunidade científica, não apenas autores neurodivergentes.

A adoção de checklists estruturados para submissão, a padronização de templates e a redução de ambiguidades interpretativas contribuem para diminuir a carga cognitiva do processo editorial. Sempre que possível, oferecer versões resumidas das normas ou guias visuais pode ser um diferencial relevante.

A comunicação editorial também merece atenção. E-mails automáticos excessivamente longos, mensagens genéricas e pareceres pouco estruturados tendem a gerar confusão. Boas práticas incluem o uso de mensagens objetivas, com destaque visual para ações esperadas, prazos claros e linguagem respeitosa, evitando ironias, implícitos ou avaliações vagas. Nos pareceres, incentivar revisores a separar comentários técnicos, sugestões de melhoria e exigências obrigatórias ajuda autores a compreender e responder de forma mais eficiente.

No que diz respeito à revisão por pares, periódicos podem adotar políticas mais flexíveis e inclusivas. Permitir prazos diferenciados mediante solicitação, aceitar pareceres estruturados em tópicos ou formulários e valorizar avaliações objetivas e bem fundamentadas, mesmo que mais concisas, são medidas que ampliam a participação de revisores neurodivergentes. Além disso, oferecer orientações claras sobre o que se espera de um parecer, e o que não se espera, reduz a ansiedade e melhora a qualidade das avaliações.

Formação editorial

Outro aspecto central é a formação editorial. Editores, assistentes editoriais e equipes de produção precisam ser sensibilizados e capacitados para lidar com a neurodiversidade de forma ética e profissional. Isso inclui compreender que dificuldades de comunicação não são sinônimo de falta de rigor científico, e que estilos de escrita ou interação diferentes não indicam menor competência acadêmica. A escuta ativa e a postura não punitiva são fundamentais para criar um ambiente editorial mais inclusivo.

Para pesquisadores neurodivergentes, a existência de políticas claras de acessibilidade editorial pode representar a diferença entre persistir ou abandonar a carreira acadêmica. A publicação científica ainda é um dos principais critérios de avaliação, progressão e reconhecimento na ciência. Quando esse sistema se mostra excludente, perde-se talento, diversidade intelectual e inovação. Ao adaptar seus processos, os periódicos não reduzem seus padrões de qualidade; ao contrário, ampliam seu alcance e relevância.

Promover a inclusão de autores e revisores com TEA, TDAH e dislexia não deve ser visto como um custo adicional ou uma concessão excepcional, mas como um investimento estratégico na sustentabilidade da ciência. Em um contexto de crescente debate sobre integridade científica, diversidade e responsabilidade social das editoras, a neurodiversidade ainda é uma fronteira pouco explorada, e profundamente necessária.

Ao abrir espaço para diferentes formas de pensar, organizar e comunicar o conhecimento, a publicação científica reafirma seu compromisso com a pluralidade intelectual que sustenta o próprio método científico. A reflexão que se impõe a editores, publishers e pesquisadores é clara: que ciência queremos produzir e para quem ela é, de fato, acessível? A resposta a essa pergunta passa, inevitavelmente, pela inclusão da diversidade cognitiva como valor editorial e como prática cotidiana.

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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

Foto: nsit0108 / Freepik

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