A avaliação da ciência sempre buscou traduzir qualidade em números. Ao longo do tempo, métricas como fator de impacto, índice “h” e número de citações consolidaram-se como referências para medir relevância acadêmica. No entanto, à medida que o ecossistema da comunicação científica se torna mais complexo e conectado, cresce também a percepção de que esses indicadores capturam apenas uma parte — e não necessariamente a mais significativa — do impacto real da pesquisa.
O problema não está nas métricas tradicionais em si, mas no estreitamento do olhar avaliativo. Citações continuam sendo um sinal importante de circulação entre pares, mas dizem pouco sobre como o conhecimento é apropriado fora desse circuito. Em outras palavras, medem influência acadêmica, mas não necessariamente relevância social, aplicabilidade ou capacidade de transformação.
Nesse contexto, ganham destaque as chamadas “métricas invisíveis”: dimensões de impacto que já existem, mas que ainda são pouco sistematizadas ou valorizadas por periódicos, publishers e instituições.
Uma das mais evidentes é o engajamento. Em um ambiente digital, artigos não são apenas citados; eles são visualizados, compartilhados, comentados e discutidos em múltiplas plataformas. Métricas alternativas (altmetrics) já tentam capturar parte desse movimento, mas muitas vezes são tratadas como indicadores acessórios, e não como sinais relevantes de circulação do conhecimento. No entanto, compreender quem interage com um artigo, em quais contextos e com que intensidade pode oferecer insights valiosos sobre seu alcance real.
Mais do que volume de acessos, importa avançar para o conceito de leitura qualificada. Quantos leitores chegam até o fim do artigo? Em que seções passam mais tempo? O conteúdo é utilizado como referência em aulas, apresentações ou discussões técnicas? Essas informações, embora mais difíceis de capturar, permitem uma compreensão mais refinada do uso efetivo da produção científica. Em vez de medir apenas cliques, trata-se de entender como o conhecimento está sendo consumido.
Outra dimensão frequentemente negligenciada é o impacto em políticas públicas. Pesquisas acadêmicas influenciam decisões governamentais, formulação de programas e desenho de políticas, mas essa influência raramente é rastreada de forma sistemática pelos periódicos. Citações em documentos oficiais, relatórios técnicos ou diretrizes institucionais ainda não fazem parte do conjunto de métricas mais utilizadas, embora representem uma das formas mais concretas de aplicação do conhecimento científico.
O mesmo ocorre com o uso educacional da pesquisa. Artigos científicos são amplamente utilizados em cursos de graduação e pós-graduação, servindo como base para disciplinas, seminários e trabalhos acadêmicos. No entanto, essa dimensão permanece praticamente invisível nos sistemas de avaliação. Saber que um artigo foi incorporado a ementas, listas de leitura ou materiais didáticos poderia oferecer uma medida relevante de sua contribuição para a formação de novos pesquisadores.
Diante desse cenário, periódicos e publishers têm a oportunidade de ampliar seu repertório de indicadores, incorporando métricas que reflitam melhor a diversidade de usos da ciência. Isso não significa abandonar os indicadores tradicionais, mas complementá-los com novas formas de mensuração.
Alguns caminhos possíveis incluem:
Essas iniciativas, embora ainda incipientes em muitos contextos, apontam para uma mudança importante: a passagem de um modelo centrado exclusivamente na produção para um modelo que também valoriza a circulação e o uso do conhecimento.
Naturalmente, medir essas dimensões traz desafios. Nem todo engajamento é sinônimo de qualidade, assim como nem toda ausência de métricas alternativas indica irrelevância. Há riscos de distorção, superficialidade ou mesmo manipulação. Por isso, a adoção de novas métricas exige critérios claros, transparência metodológica e, sobretudo, uma leitura crítica dos dados.
Ainda assim, ignorar essas dimensões significa manter uma visão incompleta do impacto científico. Em um cenário em que a ciência é cada vez mais chamada a demonstrar sua relevância social, restringir a avaliação a citações acadêmicas pode ser não apenas insuficiente, mas também contraproducente.
Para editores, publishers e universidades, a reflexão que se impõe é direta: o que estamos deixando de enxergar quando medimos impacto? Ao tornar visíveis essas métricas hoje marginalizadas, o sistema de publicação científica pode se tornar mais alinhado com a complexidade do mundo em que a ciência opera.
No fim, ampliar o que se mede é também ampliar o que se valoriza. E aquilo que passa a ser valorizado tende, inevitavelmente, a orientar o futuro da própria produção científica.
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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