A estabilidade de uma revista científica costuma ser percebida como um dado natural: fluxos de submissão previsíveis, calendários editoriais regulares, sistemas tecnológicos funcionando em segundo plano e confiança consolidada junto à comunidade acadêmica.
No entanto, essa aparente normalidade esconde uma realidade mais frágil. Eventos inesperados, sejam técnicos, éticos, jurídicos ou reputacionais, podem comprometer rapidamente a integridade editorial, a continuidade da publicação e a credibilidade construída ao longo de anos. A gestão de crises, nesse contexto, deixa de ser um tema periférico e passa a integrar o núcleo da governança editorial.
Em um ecossistema científico cada vez mais dependente de plataformas digitais, interoperabilidade de sistemas e visibilidade internacional, a exposição a riscos também se amplia. Revistas sem planos de contingência estruturados tendem a reagir de forma improvisada, muitas vezes ampliando o impacto da crise e gerando danos institucionais duradouros.
As crises editoriais podem assumir múltiplas formas. No campo da integridade científica, casos de retratações em larga escala, descoberta de manipulação de dados, plágio sistêmico ou fraudes em pareceres podem exigir respostas rápidas, transparentes e juridicamente responsáveis. A retirada massiva de artigos, por exemplo, não afeta apenas autores e leitores, mas compromete indicadores bibliométricos, acordos com indexadores e a confiança da comunidade.
Crises tecnológicas também são cada vez mais frequentes. Falhas de servidores, perda de bases de dados, indisponibilidade prolongada de plataformas de submissão ou ataques cibernéticos podem interromper fluxos editoriais, expor informações sensíveis e comprometer a preservação digital do acervo. Em ambientes com infraestrutura limitada, a dependência de um único fornecedor tecnológico aumenta significativamente o risco operacional.
Há ainda crises de natureza institucional, as quais podem ser geradas por ruptura de parcerias editoriais, conflitos internos de governança, judicialização de decisões editoriais, perda abrupta de financiamento ou mudanças regulatórias que afetam a sustentabilidade da revista. Em todos esses cenários, a ausência de protocolos claros tende a gerar decisões reativas, desalinhadas e pouco transparentes.
Resposta rápida
Um plano de contingência editorial deve ser concebido como um instrumento vivo de gestão de riscos. Seu primeiro elemento é o mapeamento sistemático de vulnerabilidades: dependência tecnológica, concentração de funções críticas, fragilidades jurídicas, lacunas documentais e gargalos operacionais. A partir desse diagnóstico, a revista pode estabelecer níveis de risco e cenários de impacto.
O segundo componente é a definição clara de papéis e responsabilidades. Em situações de crise, a ambiguidade decisória costuma agravar o problema. É fundamental que estejam previamente definidos quem toma decisões estratégicas, quem executa ações operacionais, quem responde institucionalmente e como se dá a comunicação com autores, revisores, indexadores e parceiros.
Protocolos de comunicação constituem outro eixo central. A gestão da informação durante uma crise exige equilíbrio entre transparência, responsabilidade jurídica e proteção da reputação institucional. Mensagens contraditórias, atrasos excessivos ou omissões tendem a provocar desconfiança e ampliar danos reputacionais.
O plano deve ainda prever procedimentos de recuperação: restauração de dados, retomada de fluxos editoriais, auditoria interna, revisão de políticas e avaliação pós-crise. A aprendizagem institucional é parte essencial da resiliência organizacional.
Ferramentas e parcerias
A robustez de um plano de contingência depende, em grande medida, das ferramentas disponíveis e das parcerias estabelecidas previamente. Soluções de backup automatizado, redundância de servidores, sistemas de preservação digital, autenticação segura e monitoramento de acessos reduzem riscos tecnológicos. Da mesma forma, contratos claros com provedores de plataforma, hospedagem e indexação ampliam a capacidade de resposta em situações críticas.
No campo da integridade científica, parcerias com comitês de ética, redes de editores, associações científicas e assessorias jurídicas especializadas fortalecem a tomada de decisão e reduzem a exposição institucional. A atuação isolada tende a aumentar incertezas e vulnerabilidades.
Além disso, a capacitação contínua das equipes editoriais em gestão de riscos, segurança da informação e ética em publicação contribui para uma cultura organizacional mais preventiva e menos reativa.
Maturidade editorial
Crises não são apenas eventos disruptivos; são testes objetivos da maturidade institucional de uma revista científica. A forma como uma publicação responde a um evento crítico revela a qualidade de sua governança, a consistência de seus processos, a clareza de seus valores e sua capacidade de aprendizado organizacional.
Transformar a gestão de crises em agenda permanente significa reconhecer que a excelência editorial não se constrói apenas na normalidade, mas sobretudo na capacidade de proteger a integridade científica, garantir continuidade operacional e preservar a confiança da comunidade acadêmica diante da incerteza. Em um ambiente científico cada vez mais complexo e interdependente, preparar-se para o inesperado é um imperativo estratégico.
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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