Diretrizes para editores e pesquisadores contra a crise na reprodutibilidade científica – Et al. #318

A reprodução de experimentos científicos é um dos pilares fundamentais da ciência. A confiabilidade dos resultados depende diretamente da capacidade de outros pesquisadores repetirem os experimentos e obterem conclusões semelhantes.

No entanto, a chamada “crise da reprodutibilidade” tem sido um desafio crescente em diversas áreas do conhecimento. Estudos sugerem que um grande número de publicações contém resultados que não podem ser replicados, afetando a credibilidade acadêmica e o progresso científico.

Para evitar problemas, editores e pesquisadores podem adotar diretrizes e práticas para fomentar a reprodutibilidade e garantir resultados confiáveis.

A falta de reprodutibilidade tem consequências significativas para a ciência e a sociedade. Levantamento realizado pela revista Nature em 2016 apontou que mais de 70% dos cientistas tentaram e falharam em reproduzir experimentos de outros pesquisadores. Além disso, 50% dos cientistas relataram dificuldades em replicar seus próprios experimentos.

Essa falta de consistência pode levar a desperdício de recursos, desconfiança no meio acadêmico e até mesmo à formulação de políticas públicas baseadas em dados questionáveis.

O impacto é particularmente preocupante nas áreas da biomedicina, psicologia e ciências sociais, onde decisões médicas e sociais podem ser influenciadas por achados não reprodutíveis.

Levantamento “Reproducibility Project: Psychology”, publicado na revista Science em 2015, demonstrou que apenas 39% dos experimentos analisados foram reproduzidos com sucesso. Esse fenômeno também ocorre em áreas como a inteligência artificial, onde modelos treinados podem produzir resultados inconsistentes devido à variabilidade dos dados e algoritmos.

Além dos impactos acadêmicos e práticos, a crise de reprodutibilidade também afeta a confiança do público na ciência. A incapacidade de replicar estudos pode ser explorada para desacreditar descobertas científicas válidas, prejudicando políticas públicas baseadas em evidências.

Diretrizes para editores e pesquisadores

Garantir a reprodutibilidade exige esforços conjuntos de pesquisadores, editores e financiadores. Algumas diretrizes essenciais incluem:

1 – Práticas de transparência

A transparência nos métodos e dados utilizados em um estudo é essencial para a reprodução de experimentos. Isso inclui:

Disponibilização de conjuntos de dados brutos em repositórios públicos, como Zenodo, OSF ou Dryad.

Uso de código aberto para análises estatísticas e algoritmos, permitindo que outros cientistas testem a robustez dos resultados.

Descrição detalhada dos procedimentos metodológicos, incluindo os materiais e parâmetros exatos utilizados.

Utilização de identificadores persistentes, como DOI (Digital Object Identifier), para facilitar a rastreabilidade de dados e publicações.

II – Pré-registro e publicação de estudos negativos

Muitas falhas de reprodutibilidade decorrem do viés de publicação, que favorece estudos com resultados positivos. Para mitigar esse problema, sugere-se:

Realizar o pré-registro de estudos em plataformas como ClinicalTrials.gov, AsPredicted e Registered Reports pode garantir que os pesquisadores sigam um protocolo definido antes de realizarem as análises.

Incentivar a publicação de estudos com resultados negativos ou nulos melhora a confiabilidade da literatura científica e reduz o efeito “file drawer” (resultados negativos não publicados).

Estabelecer meta-análises para consolidar evidências a partir de múltiplos estudos e identificar padrões reprodutíveis.

III – Revisão por Pares Aberta e Colaborativa

Os processos de revisão por pares devem ser aprimorados para garantir uma avaliação crítica mais rigorosa, por meio de:

Adoção de revisão por pares aberta, onde os nomes dos revisores são divulgados, reduzindo conflitos de interesse e incentivando feedbacks mais construtivos.0

Revisão colaborativa, em que múltiplos especialistas recomendam melhorias no desenho do estudo antes mesmo da coleta de dados.

Uso de plataformas como Publons e Open Review para aumentar a transparência no processo de revisão por pares.

IV – Uso de estatísticas rigorosas e reprodutibilidade computacional

O uso inadequado de métodos estatísticos é uma das principais causas da não reprodutibilidade. Para mitigar esse risco, sugere-se:

Preferência por testes estatísticos robustos e pelo cálculo adequado de tamanho amostral para evitar resultados espúrios.

Incentivo ao uso de notebooks computacionais, como Jupyter Notebook e R Markdown, que permitem reexecutar análises e validar cálculos.

Estabelecimento de padrões para documentação e compartilhamento de códigos e pipelines analíticos para permitir reanálises independentes.

Responsabilidade compartilhada

A ciência reprodutível é essencial para o progresso do conhecimento e a credibilidade acadêmica. A crise da reprodutibilidade pode ser enfrentada com a implementação de diretrizes rigorosas, incentivando a transparência, o pré-registro de estudos, a publicação de resultados negativos e a adoção de revisão por pares mais abertas e colaborativas.

A responsabilidade de garantir resultados confiáveis é compartilhada entre pesquisadores, editores e financiadores, sendo essencial para a construção de um ambiente acadêmico mais sólido e confiável.

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Foto: Jennifer Pitiquen / Dreamstime.com

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