Desinformação na ciência: desafios editoriais na era da pós-verdade — Et al. #360

Nunca foi tão fácil produzir e disseminar informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil sustentar consensos mínimos sobre o que é evidência, método e fato. A ciência, que durante décadas ocupou lugar relativamente protegido no debate público, passou a disputar atenção em um ambiente saturado por narrativas simplificadas, interpretações distorcidas e conteúdos deliberadamente falsos. Com isso, os editores científicos deixaram de ser apenas curadores de qualidade metodológica: tornaram-se também guardiões da credibilidade institucional.

A chamada “era da pós-verdade” não se caracteriza pela ausência de dados, mas pela erosão da autoridade das fontes. Resultados preliminares circulam em redes sociais antes da revisão por pares; preprints são citados como conclusões definitivas; artigos complexos são reduzidos a manchetes descontextualizadas.

Quando erros são identificados, a correção raramente alcança a mesma audiência da informação original. Para periódicos, isso cria um dilema: como preservar a integridade do registro científico em um ecossistema comunicacional que opera por velocidade e polarização?

O papel editorial além da publicação

Tradicionalmente, o trabalho do editor terminava com a publicação do artigo. Hoje, esse marco é apenas o início de uma nova etapa. O ciclo de vida de um manuscrito inclui sua circulação em redes digitais, sua apropriação por influenciadores e sua eventual instrumentalização em disputas ideológicas. Ignorar essa dinâmica é abrir espaço para que terceiros definam o significado público da pesquisa.

Isso não significa que periódicos devam assumir papel militante ou atuar como árbitros do debate político. Significa reconhecer que a comunicação científica é parte indissociável da responsabilidade editorial. Políticas claras sobre divulgação, linguagem acessível em resumos e notas à imprensa bem contextualizadas são ferramentas estratégicas para reduzir distorções.

A proliferação de desinformação também se alimenta de falhas reais. Quando artigos problemáticos permanecem no ar sem sinalização adequada, alimentam teorias conspiratórias e fragilizam a confiança pública. Por isso, políticas de retratação e correção precisam robustas e transparentes.

Organizações como o Committee on Publication Ethics (Cope) oferecem diretrizes consolidadas para lidar com má conduta, erros honestos e disputas autorais. Segui-las, além de uma questão de conformidade ética, é um investimento reputacional. Retratações claras, com justificativas explícitas e rastreáveis, demonstram compromisso com a autocorreção, um dos pilares do método científico.

É igualmente importante diferenciar retratação de contestação. Em tempos de polarização, artigos podem ser alvo de campanhas coordenadas que buscam desacreditar resultados legítimos. Editores precisam desenvolver critérios objetivos para distinguir críticas fundamentadas de pressões ideológicas. A ausência de critérios explícitos abre espaço para acusações de censura ou complacência.

Comunicação institucional

Muitos periódicos ainda tratam a comunicação como atividade periférica. No entanto, a forma como resultados são apresentados ao público pode mitigar ou amplificar riscos de desinformação. Resumos estruturados, declarações claras sobre limitações do estudo e contextualização do estágio da pesquisa (exploratória, confirmatória, preliminar) reduzem margens para interpretações equivocadas.

Universidades e publishers têm papel decisivo nesse processo. Assessores de imprensa especializados em ciência, treinados para evitar exageros e simplificações indevidas, funcionam como primeira barreira contra a distorção. A pressão por manchetes impactantes, especialmente em áreas sensíveis como saúde, clima ou políticas públicas, precisa ser equilibrada com rigor e prudência.

Uma prática recomendável é a elaboração conjunta de materiais de divulgação entre autores, editores e equipes de comunicação. Esse alinhamento diminui o risco de que títulos promocionais extrapolem as evidências apresentadas no artigo.

Na outra ponta, a relação entre periódicos e jornalismo científico merece ser fortalecida. Veículos especializados e jornalistas com formação técnica são aliados naturais na tradução responsável da pesquisa para o público amplo. Parcerias estratégicas, briefings técnicos e disponibilização de especialistas para entrevistas ajudam a qualificar o debate.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a mídia opera sob lógicas distintas da academia. Prazo, audiência e narrativa influenciam decisões editoriais. Quanto mais acessíveis e claros forem os materiais fornecidos pelos periódicos, menor a probabilidade de distorções.

Iniciativas de fact-checking e redes colaborativas de verificação também podem integrar essa estratégia. Embora o combate direto à desinformação não seja função exclusiva dos periódicos, a cooperação com instituições comprometidas com a checagem de fatos amplia o alcance da correção científica.

Preprints: responsabilidade ampliada

A expansão dos servidores de preprints acrescenta outra camada de complexidade. Ao acelerar a circulação de resultados ainda não revisados, essas plataformas ampliam a visibilidade da ciência, assim como o risco de uso indevido. Editores podem contribuir para a educação do público ao explicitar, em suas políticas e comunicações, as diferenças entre preprint e artigo revisado.

Além disso, quando um preprint evolui para publicação formal, a rastreabilidade entre versões deve ser clara. Essa transparência reduz ambiguidades e dificulta a circulação de versões desatualizadas como se fossem conclusões definitivas.

Agenda contra a desinformação

O enfrentamento da desinformação não se resolve com comunicados isolados. Ele exige uma agenda estruturada, que combine políticas editoriais consistentes, transparência em correções, formação contínua de pareceristas e diálogo ativo com a sociedade.

Para editores, publishers e universidades, o desafio é duplo. De um lado, preservar a autonomia acadêmica frente a pressões externas. De outro, assumir que a neutralidade institucional não significa silêncio diante da distorção deliberada da evidência. A credibilidade científica é um bem coletivo e frágil; sua manutenção depende de decisões editoriais corajosas e coerentes.

A ciência sempre foi um empreendimento humano, marcado por erros, revisões e disputas interpretativas. O que mudou foi a velocidade e a escala com que essas dinâmicas se tornam públicas. Na era da pós-verdade, a integridade editorial não é apenas uma questão técnica, é uma escolha estratégica sobre o papel que periódicos e universidades desejam desempenhar na construção de um espaço público informado.

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Imagem: / Freepik

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