Comunicação científica além do paper: como ampliar impacto em um ecossistema multiplataforma — Et al. #373

Durante décadas, o artigo científico foi o principal, e quase exclusivo, canal de validação e disseminação do conhecimento acadêmico. Ainda hoje, ele permanece como o núcleo da comunicação científica formal. No entanto, limitar o alcance da pesquisa ao paper significa ignorar uma transformação profunda: a ciência passou a circular em um ecossistema muito mais amplo, dinâmico e orientado por múltiplas linguagens.

A expansão para redes sociais, vídeos, podcasts e formatos visuais não representa uma ruptura com o modelo tradicional, mas sim uma camada complementar de comunicação, capaz de ampliar o impacto social e acadêmico da pesquisa. Para editores, publishers e universidades, o desafio não é substituir o artigo, mas entender como potencializá-lo por meio de estratégias multiplataforma.

Essa mudança responde, em parte, a uma tensão conhecida: o descompasso entre a produção científica e sua apropriação pela sociedade. Publicar em periódicos de alto impacto garante visibilidade dentro da comunidade acadêmica, mas não necessariamente assegura compreensão ou circulação fora dela. Nesse cenário, formatos mais acessíveis tornam-se pontes entre o conhecimento especializado e públicos mais amplos.

As redes sociais ocupam papel central nesse movimento. Plataformas como TikTok e YouTube vêm sendo utilizadas por pesquisadores e instituições para traduzir resultados complexos em conteúdos breves, visuais e narrativos. O que está em jogo não é apenas simplificação, mas reconfiguração da linguagem científica. Um experimento pode ser apresentado em 60 segundos, desde que preserve sua essência e evite distorções. Essa habilidade, ainda pouco explorada na formação acadêmica, tende a se tornar cada vez mais relevante.

Ao mesmo tempo, o crescimento de canais científicos nessas plataformas levanta questões importantes. Como garantir precisão sem sacrificar engajamento? Como evitar a superficialização de temas complexos? E, sobretudo, como integrar essas iniciativas à comunicação institucional de periódicos e universidades, sem que sejam vistas como iniciativas periféricas?

Outro formato que vem ganhando espaço é o dos resumos gráficos. Cada vez mais presentes em periódicos internacionais, eles funcionam como sínteses visuais do artigo, facilitando a compreensão rápida dos principais achados. Mais do que um recurso estético, o resumo gráfico é uma estratégia cognitiva: organiza informações, destaca relações e amplia a acessibilidade do conteúdo, inclusive para leitores de outras áreas.

Os podcasts acadêmicos também se consolidam como ferramenta relevante. Diferentemente dos vídeos curtos, eles permitem maior aprofundamento, explorando contextos, bastidores da pesquisa e implicações dos resultados. Para universidades e publishers, podcasts oferecem a oportunidade de humanizar a ciência, aproximando o público dos pesquisadores e de seus processos de investigação.

Multiplataforma

Nesse cenário, o papel dos periódicos científicos também está em transformação. Alguns já incorporam estratégias multiplataforma em suas rotinas editoriais, promovendo artigos por meio de vídeos curtos, entrevistas com autores ou conteúdos visuais adaptados para redes sociais. Outros ainda observam esse movimento com cautela, preocupados com a manutenção do rigor científico e da credibilidade editorial.

No entanto, é importante reconhecer que impacto científico e impacto social não são dimensões opostas. Pelo contrário, tendem a se reforçar mutuamente. Pesquisas que circulam mais amplamente têm maior potencial de gerar citações, colaborações e aplicações práticas. Ao mesmo tempo, tornam-se mais visíveis para formuladores de políticas públicas, profissionais de diferentes áreas e a própria sociedade.

Para que essa ampliação de impacto seja efetiva, algumas práticas podem ser consideradas por editores e instituições:

  • Incentivar autores a produzirem versões acessíveis de seus estudos, como vídeos curtos ou textos de divulgação.
  • Integrar resumos gráficos como parte do processo editorial, e não como elemento opcional.
  • Desenvolver diretrizes para comunicação científica em redes sociais, equilibrando clareza e rigor.
  • Investir em capacitação de pesquisadores para atuação em ambientes digitais.
  • Criar estratégias institucionais de divulgação que articulem diferentes formatos e plataformas.

Essas ações, quando estruturadas, ajudam a evitar um risco comum: o de que a comunicação multiplataforma seja tratada como iniciativa isolada, dependente do esforço individual de alguns pesquisadores mais engajados. Ao contrário, ela pode — e deve — ser incorporada como parte da política editorial e institucional.

Outro ponto relevante é a mensuração de impacto. Métricas tradicionais, como fator de impacto e número de citações, continuam sendo fundamentais. No entanto, indicadores alternativos, como visualizações, compartilhamentos e engajamento em redes sociais, oferecem pistas sobre a circulação ampliada do conhecimento. O desafio está em interpretar essas métricas com critério, evitando confundir popularidade com qualidade, mas reconhecendo que ambas podem coexistir.

A comunicação científica está, portanto, em um momento de transição. O paper continua sendo o eixo estruturante da produção acadêmica, mas já não é suficiente para dar conta das demandas contemporâneas de visibilidade, acessibilidade e relevância social. Expandir para múltiplas plataformas não significa diluir o rigor científico, mas reconhecer que diferentes formatos atendem a diferentes públicos e propósitos.

Para editores, publishers e universidades, a questão central deixa de ser “se” devem adotar estratégias multiplataforma, e passa a ser “como” fazê-lo de forma consistente, ética e alinhada à missão científica. Afinal, em um ambiente cada vez mais saturado de informação, comunicar bem não é apenas uma vantagem competitiva, é parte integrante da responsabilidade de produzir ciência.

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