O debate sobre modelos de acesso aberto à literatura científica entrou em uma fase de amadurecimento, impulsionado tanto pela pressão por maior transparência na pesquisa quanto pela crise estrutural dos custos de publicação. Com isso, o modelo Diamond Open Access vem ganhando visibilidade como uma alternativa que desafia a lógica dominante dos Article Processing Charges (APCs), ao propor um princípio aparentemente simples, mas operacionalmente complexo: nem leitores pagam para acessar, nem autores pagam para publicar.
Ao contrário do Gold Open Access, no qual o conteúdo é disponibilizado livremente ao leitor, mas sustentado por taxas de publicação pagas pelos autores ou suas instituições, o modelo Diamond elimina a transação financeira direta no ponto de publicação. Em teoria, trata-se de um retorno ao ideal de circulação livre do conhecimento científico. Na prática, porém, esse ideal desloca completamente a questão do financiamento: se não há cobrança individualizada, a sustentabilidade depende de arranjos institucionais, consórcios acadêmicos, agências públicas e, em alguns casos, apoio de sociedades científicas.
A distinção entre Gold e Diamond não é apenas financeira, mas estrutural. Enquanto o Gold Open Access mantém a lógica de mercado ao transferir custos para o lado da produção, o Diamond tenta reposicionar a publicação científica como um bem comum sustentado coletivamente. Isso implica uma mudança de paradigma relevante para editores e gestores de periódicos: o foco deixa de ser a recuperação de custos por artigo e passa a ser a construção de ecossistemas de financiamento contínuo.
Nos últimos anos, porém, esse modelo deixou de ser uma experiência marginal para se tornar objeto de políticas institucionais e discussões multilaterais. Iniciativas na Europa, especialmente em países como França, Holanda e regiões nórdicas, têm incentivado infraestruturas públicas de publicação. Plataformas apoiadas por universidades e consórcios nacionais demonstram que é possível operar periódicos com padrões editoriais rigorosos sem a intermediação de APCs, desde que haja coordenação e previsibilidade orçamentária.
Na América Latina, o modelo Diamond encontra terreno historicamente mais fértil. Redes como SciELO e Redalyc já operam há anos com lógica semelhante, ainda que com variações de implementação. A presença de universidades públicas como principais mantenedoras de periódicos também contribui para um ecossistema no qual a publicação científica é entendida como extensão da missão institucional, e não como serviço transacional. Essa característica torna a região um laboratório relevante para a discussão global sobre alternativas ao modelo comercial dominante.
Sustentabilidade financeira
Apesar do crescimento e da legitimação gradual do modelo, a sustentabilidade financeira permanece seu ponto mais sensível. A ausência de cobrança direta não elimina custos. Pelo contrário, torna-os mais difusos e, muitas vezes, mais difíceis de mensurar. Revisão por pares, editoração, preservação digital, interoperabilidade de sistemas e indexação continuam exigindo trabalho especializado e infraestrutura tecnológica. A diferença é que esses custos precisam ser absorvidos por estruturas institucionais já pressionadas por restrições orçamentárias.
Nesse sentido, o modelo Diamond depende fortemente de estabilidade política e compromisso de longo prazo por parte de universidades, agências de fomento e governos. Quando esse suporte é intermitente, os periódicos enfrentam dificuldades de continuidade, o que levanta uma questão central: a gratuidade total pode ser mais vulnerável à instabilidade do que modelos parcialmente financiados por mercado.
Outro desafio relevante está relacionado à profissionalização editorial. Muitos periódicos Diamond operam com equipes reduzidas, baseadas em trabalho voluntário ou parcialmente remunerado, o que pode comprometer escalabilidade, agilidade de avaliação e padronização de processos. À medida que o modelo cresce, aumenta também a necessidade de formalização de fluxos editoriais, adoção de tecnologias de gestão de manuscritos e capacitação contínua de editores e revisores.
Há também a questão da percepção de prestígio. Em parte do ecossistema acadêmico, ainda persiste a associação entre cobrança de APCs e qualidade editorial, o que cria um viés estrutural contra periódicos Diamond, especialmente em áreas mais competitivas. Esse estigma, embora cada vez mais questionado, influencia decisões de submissão de autores e políticas institucionais de avaliação.
Apesar desses entraves, o avanço do Diamond Open Access sugere uma inflexão importante no debate sobre acesso aberto. Ao retirar o dinheiro da transação direta entre autor e periódico, o modelo desloca a discussão para o campo da governança científica. Em vez de perguntar quem paga por artigo publicado, a questão passa a ser quem deve sustentar a infraestrutura de produção e circulação do conhecimento.
Esse deslocamento não é trivial. Ele recoloca universidades e agências públicas no centro do sistema de comunicação científica, ao mesmo tempo em que exige novos mecanismos de coordenação internacional. Sem padrões compartilhados de financiamento e gestão, há o risco de fragmentação e desigualdade entre periódicos de diferentes regiões e áreas do conhecimento.
Ainda assim, a expansão do modelo Diamond Open Access indica que o sistema científico global está longe de uma solução única para o problema da sustentabilidade editorial. Mais do que substituir o Gold Open Access, o modelo parece atuar como força de equilíbrio, tensionando o sistema e ampliando o repertório de possibilidades institucionais.
Em última instância, o que está em disputa não é apenas o formato de financiamento da publicação científica, mas a própria definição de quem controla as condições de circulação do conhecimento. Assim, o Diamond Open Access deixa de ser uma alternativa periférica para ocupar um espaço estratégico no redesenho da comunicação científica contemporânea.
PALAVRA DO CEO:
“Na Zeppelini, temos visto periódicos Diamond naufragar não por falta de missão, mas por falta de planilha. O modelo é viável, mas viabilidade não é sinônimo de gratuidade: alguém sempre paga, a questão é quem e por quanto tempo. O que o Diamond elimina é a transação visível. A diagramação, a revisão técnica, a indexação e a preservação continuam existindo (e continuam tendo custo). Editoras especializadas seguem sendo parte extremamente necessária dessa equação, independentemente de quem assina o contrato. Minha recomendação aos editores: antes de abraçar o Diamond como bandeira ideológica, mapeiem seus custos reais e entendam que terceirizar a produção editorial com qualidade não é incompatível com nenhum modelo de acesso aberto. É o que garante que o modelo funcione.”
Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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