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Quanto custa, de fato, publicar um artigo científico? — Et al. #389

Por Zeppelini Editorial 02 nov 2026 7 min de leitura
Quanto custa, de fato, publicar um artigo científico? — Et al. #389

O DOI foi registrado, o artigo está disponível na plataforma do periódico e o leitor já pode consultar o conteúdo. Essa página, porém, resulta de um processo que envolve trabalho editorial, infraestrutura tecnológica, serviços especializados e manutenção contínua.

As taxas de processamento de artigos, conhecidas como APC (Article Processing Charge), costumam concentrar a atenção quando se discutem os custos da publicação científica. Essas cobranças financiam parte da operação, mas não representam necessariamente o custo total de produzir e manter um artigo publicado.

Para entender essa conta, é preciso distinguir quanto custa realizar o trabalho editorial e quanto se cobra para financiá-lo. Custo e preço não são equivalentes.

A publicação começa antes da aceitação

Cada manuscrito exige trabalho, mesmo quando é recusado na triagem inicial. A equipe editorial confere arquivos, verifica requisitos formais e avalia se o conteúdo se enquadra no escopo da revista. Se o texto avança, é preciso selecionar pareceristas, acompanhar prazos e mediar a comunicação entre autores e avaliadores.

A revisão por pares depende do conhecimento especializado de pesquisadores e de uma estrutura para registrar decisões, cobrar pareceres e manter o histórico da tramitação.

Após a aprovação, o artigo passa por revisão textual, normalização de referências, conferência de metadados, tratamento de tabelas e figuras e composição das provas. Conforme os padrões do periódico, a produção pode exigir conversão para XML, marcação semântica e adequação a plataformas de leitura e indexação.

Metadados incorretos, referências inconsistentes e arquivos mal preparados dificultam a recuperação do artigo e geram retrabalho.

O que entra na conta

A operação envolve equipes de secretaria editorial, edição, produção, tecnologia da informação e atendimento. Mesmo quando um profissional acumula funções, o tempo dedicado à publicação representa um custo.

A infraestrutura digital exige manutenção. Sistemas de submissão e avaliação, hospedagem, armazenamento, segurança, atualizações e suporte técnico sustentam o periódico. Conforme o modelo adotado, somam-se serviços terceirizados de revisão linguística, tradução, diagramação, preparação de arquivos e marcação XML.

Contratos, pagamentos, fornecedores e prestação de contas também geram despesas. Em periódicos vinculados a universidades, parte desses gastos pode estar diluída no orçamento institucional, sem uma rubrica específica.

O trabalho continua após a publicação. A manutenção do DOI, a atualização de registros, a preservação digital, a correção de links e metadados e a compatibilidade com serviços de indexação exigem acompanhamento. A divulgação em canais institucionais e redes especializadas também demanda recursos.

Os custos variam conforme o volume de submissões, a periodicidade, os idiomas, a complexidade dos artigos, os requisitos técnicos e os serviços contratados. Comparar periódicos apenas pelo valor cobrado por artigo pode ocultar diferenças na estrutura operacional.

O trabalho que não aparece no orçamento

Editores e pareceristas frequentemente colaboram sem remuneração específica. Isso reduz o desembolso direto, mas não elimina o trabalho. Selecionar avaliadores, analisar manuscritos e tomar decisões editoriais consomem tempo de pesquisadores que também cumprem suas atividades acadêmicas.

Nem todo trabalho voluntário precisa ser convertido em despesa financeira. Os gastos contabilizados, porém, não representam necessariamente todos os recursos mobilizados para publicar um artigo.

Essa diferença afeta a sustentabilidade dos periódicos. Uma revista pode operar com orçamento reduzido porque utiliza instalações cedidas, depende de voluntários ou concentra tarefas em poucas pessoas. Sem condições de substituir um editor, manter sistemas ou redistribuir atividades, a estrutura fica vulnerável.

APC não é sinônimo de custo editorial

A taxa de processamento é uma das formas de financiar a publicação, mas não precisa corresponder às despesas de cada manuscrito. Seu valor pode integrar um modelo que distribui os custos entre artigos, autores, instituições e outras fontes de receita.

Periódicos também podem receber recursos de universidades, associações científicas, agências de fomento, fundações e convênios.

Uma cobrança abaixo do custo operacional pode ser sustentada por subsídios. Já uma APC elevada não comprova, isoladamente, maior qualidade editorial. O preço depende do financiamento e das decisões de gestão; a qualidade, dos procedimentos adotados e dos serviços oferecidos.

Nos periódicos que não cobram dos autores, as despesas permanecem. Enquanto uma universidade assume os custos de pessoal e infraestrutura, uma associação científica pode financiar a publicação com recursos próprios. Algumas atividades ficam a cargo de equipes institucionais ou voluntários. A ausência de APC, portanto, não significa que publicar seja gratuito.

Sustentabilidade exige planejamento

Conhecer os custos ajuda a identificar gargalos, avaliar contratos, dimensionar equipes e decidir quais tarefas podem ser automatizadas sem comprometer os procedimentos editoriais. Também permite detectar dependências, como a concentração de atividades em um profissional ou a falta de orçamento para manter os sistemas.

O objetivo dessa análise não é defender a cobrança de taxas, mas dar clareza à gestão e permitir que autores, instituições e financiadores compreendam como os periódicos funcionam e de onde vêm os recursos.

Reduzir despesas pode ser necessário, mas cortes sem avaliação comprometem a revisão, a produção, a segurança e a preservação digital, com custos posteriores decorrentes de falhas que exigem correções.

Não existe um preço universal para publicar um artigo científico. O valor depende da estrutura do periódico, das atividades realizadas e do modelo de financiamento. Mais útil do que buscar uma cifra de referência é entender quais recursos sustentam o processo, quem assume as despesas e se há condições de manter a operação.

A página disponível ao leitor é apenas a parte visível desse trabalho. Para que o artigo continue identificável, acessível e íntegro, a estrutura editorial e tecnológica precisa permanecer ativa após a publicação. É esse conjunto de atividades, e não apenas a disponibilização do arquivo, que entra na conta.

Palavra do CEO

“Na Zeppelini, trabalhamos com produção editorial especializada há 25 anos, e uma coisa que aprendemos cedo é que os periódicos raramente têm clareza sobre quanto realmente custa uma publicação. Sabem o que cobram dos autores ou o que recebem de subsídio, mas o custo real, com todas as etapas mapeadas, quase nunca está na planilha. Essa falta de clareza tem consequências práticas: contratos mal dimensionados, equipes sobrecarregadas e dependências frágeis que aparecem só quando alguém sai ou um recurso acaba. Minha recomendação: antes de revisar sua política de financiamento, mapeie o que a operação editorial realmente consome. Custo e preço são coisas diferentes. Saber distinguir os dois é o primeiro passo para uma gestão sustentável.”

Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers

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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

Imagem: BillionPhotos / Magnific

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