A publicação de um artigo científico não encerra o trabalho do periódico. Mesmo depois da avaliação por pares, das revisões e da preparação editorial, podem surgir erros, dúvidas sobre a autoria ou questionamentos sobre a confiabilidade dos resultados. Quando isso acontece, a revista precisa estar preparada para agir, documentar as decisões e informar os leitores.
As falhas nem sempre são identificadas antes da publicação. Um autor pode detectar um erro nos dados, um leitor apontar uma inconsistência ou outro pesquisador encontrar dificuldades para reproduzir os resultados. Também existe a possibilidade de surgir problemas relacionados às afiliações institucionais, à autoria ou à integridade científica, às vezes meses ou anos após a disponibilização do artigo.
O desafio está em lidar com cada ocorrência sem comprometer a transparência do registro científico. Para isso, a gestão pós-publicação precisa fazer parte da rotina editorial, com procedimentos claros para receber manifestações, apurar problemas e comunicar as providências adotadas.
Resposta editorial
Ela depende da natureza do problema. Corrigir uma informação equivocada não é o mesmo que alertar os leitores sobre uma investigação em andamento ou reconhecer que os resultados de um estudo não são confiáveis.
As principais medidas editoriais têm finalidades distintas:
- Correção: permite ajustar informações incorretas em um artigo publicado. Conforme a política editorial e o tipo de falha, a mudança pode ser formalizada por meio de um aviso de correção ou errata. O comunicado deve identificar o artigo, indicar o que foi alterado e esclarecer as consequências da mudança para a leitura do trabalho. Um erro na afiliação de um autor, por exemplo, tem implicações diferentes das de um dado incorreto que comprometa a interpretação dos resultados.
- Expressão de preocupação: é indicada quando existem dúvidas relevantes sobre a confiabilidade de uma publicação, mas os fatos ainda estão sendo apurados. O aviso informa aos leitores que há uma questão pendente, sem antecipar conclusões sobre os envolvidos. Não substitui a investigação nem equivale a uma retratação.
- Retratação: é utilizada quando há problemas graves que tornam os resultados ou as conclusões do artigo pouco confiáveis, ou quando outras circunstâncias justificam formalmente essa medida. A declaração deve explicar os motivos da decisão e permanecer vinculada ao trabalho original, preservando o histórico da publicação.
A escolha entre essas medidas exige critérios definidos. Sem parâmetros claros, situações semelhantes podem receber tratamentos distintos, enquanto casos controversos ficam sujeitos a decisões improvisadas. As boas práticas editoriais e os critérios de indexação do SciELO oferecem referências para a elaboração de políticas que contemplem a transparência das correções, a integridade do registro científico e a divulgação das decisões editoriais.
O que muda precisa ficar registrado
Corrigir um artigo não significa apagar sua versão anterior sem deixar vestígios. Uma alteração silenciosa em um PDF já publicado tem potencial de dificultar a identificação do que foi modificado e comprometer a rastreabilidade do documento.
Isso não significa conservar um erro conhecido para manter intacto o arquivo original. O procedimento adequado é atualizar o conteúdo quando necessário e registrar as mudanças de maneira que os leitores possam identificar o histórico da publicação. Avisos de correção, expressões de preocupação e retratações devem estar claramente associados ao artigo correspondente.
Os metadados também exigem atenção. Título, autoria, DOI, afiliações, referências, datas e informações sobre o estado editorial precisam estar coerentes na página da revista, nos arquivos disponibilizados e nos serviços que distribuem ou indexam o conteúdo.
Uma correção publicada no site do periódico, por si só, não garante que a informação atualizada chegue às bases de dados e aos repositórios que receberam a versão anterior. Dependendo do caso, a equipe editorial precisará comunicar os responsáveis por esses serviços e acompanhar a atualização dos registros.
O problema vai além de uma inconsistência técnica. Se diferentes versões circulam sem identificação clara, leitores e pesquisadores podem consultar, citar ou utilizar informações divergentes sem perceber que houve uma alteração.
Questionamentos precisam de encaminhamento
A revista deve oferecer canais acessíveis para receber manifestações de leitores, autores e pesquisadores. As solicitações precisam ser registradas e encaminhadas para avaliação, sem que críticas sejam descartadas por conveniência ou que acusações sejam tratadas como fatos comprovados.
Quando o questionamento exigir esclarecimentos dos autores, a equipe editorial deve informá-los e estabelecer os próximos passos. Se houver suspeita de má conduta científica, a apuração precisará seguir os procedimentos pertinentes, com imparcialidade e cuidado na divulgação de informações ainda não verificadas.
Nem toda manifestação levará a uma alteração do artigo. Uma dúvida pode ser esclarecida diretamente pelos autores ou editores, enquanto uma inconsistência exige consulta a especialistas e determinados casos dependem de investigações conduzidas pelas instituições envolvidas.
O que não deve faltar é o registro das providências adotadas. Documentar as manifestações recebidas, as análises realizadas e as justificativas das decisões ajuda a manter a coerência editorial e permite recuperar o histórico de cada caso.
Uma política que funcione antes da crise
Os critérios de seleção e permanência no SciELO reforçam a necessidade de transparência e de práticas compatíveis com a integridade da comunicação científica. Para os periódicos, isso significa incorporar a gestão pós-publicação às suas políticas editoriais, em vez de definir procedimentos apenas quando surge um problema.
Uma política consistente deve explicar como encaminhar questionamentos, quais ocorrências podem justificar correções ou retratações, quem é responsável por avaliar cada situação e como as decisões serão comunicadas. Também precisa prever a preservação dos registros e a atualização dos metadados e das informações disponibilizadas pelos indexadores.
Essas definições auxiliam autores e leitores a compreender como a revista atua diante de problemas. Também oferecem à equipe editorial critérios para conduzir casos delicados sem depender exclusivamente de decisões individuais.
O registro do DOI e a inclusão do artigo em uma base de dados não encerram a responsabilidade do periódico. A partir da publicação, o trabalho passa a circular, ser citado e servir de referência para outras pesquisas. Nesse percurso, novas evidências podem surgir e falhas antes despercebidas vir à tona.
A avaliação por pares continua sendo uma etapa central do processo editorial, mas não elimina a possibilidade de erros. A qualidade de uma revista também depende da maneira como ela reage quando uma publicação precisa ser revista.
Manter a literatura científica confiável não exige presumir que todo artigo esteja livre de falhas. Exige reconhecer que problemas podem ocorrer e assegurar que sejam tratados com transparência, rigor e responsabilidade. A gestão pós-publicação é parte desse compromisso e deve acompanhar o artigo durante toda a sua trajetória.
Palavra do CEO
“Já atendemos periódicos em crise por causa de artigos que precisavam ser corrigidos ou retratados e que não tinham política nenhuma para lidar com isso. Sem procedimento definido, cada caso vira uma decisão individual, muitas vezes tomada sob pressão, sem documentação e sem critério claro. O resultado costuma ser pior do que o problema original. Na Zeppelini, quando fazemos diagnóstico editorial de uma revista, a política pós-publicação está sempre na lista de verificação. Não porque erros sejam frequentes, mas porque quando acontecem, a forma como a revista responde define sua reputação por muito mais tempo do que o erro em si. Minha recomendação: revisem agora a política pós-publicação da sua revista. Se ela não existir, este artigo é o ponto de partida.”
Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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