Durante muito tempo, fazer uma referência bibliográfica significava apontar para um objeto relativamente estável: um livro, capítulo ou artigo científico. A referência funcionava como um endereço dentro da literatura, permitindo localizar a fonte que sustentava determinada afirmação. Esse modelo continua essencial, mas já não dá conta da complexidade da pesquisa contemporânea.
A ciência passou a produzir e utilizar uma variedade crescente de objetos que também carregam evidências, métodos e resultados. Conjuntos de dados, códigos, softwares, protocolos, materiais suplementares, preprints, modelos computacionais e sistemas de inteligência artificial já integram diferentes etapas da pesquisa. Em muitos casos, deixar de citá-los significa ocultar parte do caminho que levou a determinado resultado.
Essa transformação impõe uma questão aos periódicos e publishers: o que deve ser considerado uma referência científica e como esses diferentes objetos devem ser registrados?
Uma pesquisa pode depender de uma base de dados criada por outro grupo, de um algoritmo disponibilizado em um repositório, de uma versão específica de software ou de um protocolo publicado separadamente. Nesses casos, citar apenas o artigo que descreve o recurso pode ser insuficiente.
A identificação da versão utilizada torna-se especialmente importante para a reprodução dos resultados. Um software pode ser atualizado, assim como uma base de dados pode sofrer alterações. Sem informações precisas sobre o recurso empregado, uma pesquisa futura poderá ter dificuldade para reconstruir o percurso original.
A referência deixa, assim, de representar apenas uma publicação e passa a registrar componentes do próprio processo científico.
Identificadores e rastreabilidade
Nesse cenário, os identificadores persistentes ganham importância. DOI, ORCID e outros mecanismos permitem conectar pessoas, objetos, versões e publicações, criando uma infraestrutura para a rastreabilidade da pesquisa.
O desafio é ampliar essa lógica para além dos artigos. Dados, softwares e outros produtos científicos também precisam ser identificáveis de forma persistente, permitindo sua recuperação e associação aos trabalhos que os utilizaram.
Essa estrutura tem impacto direto sobre a reprodutibilidade. Um endereço eletrônico que deixa de funcionar ou um recurso alterado sem registro compromete a capacidade de recuperar a fonte original. A identificação persistente, combinada à informação sobre versões, ajuda a preservar a memória da pesquisa.
Também existe uma dimensão de reconhecimento. A citação de dados, códigos ou softwares permite que seus responsáveis tenham sua contribuição registrada e mensurada, aproximando esses objetos dos mecanismos tradicionais de crédito acadêmico.
Desafio editorial
A ampliação dos objetos citáveis exige mudanças nas políticas dos periódicos. Instruções aos autores precisam contemplar diferentes tipos de recursos e estabelecer quais informações devem acompanhar cada referência.
Não se trata apenas de atualizar normas de estilo. Sistemas de submissão, revisão, produção e publicação também precisam reconhecer esses objetos e preservar suas relações. Uma referência corretamente elaborada, mas mal processada pela infraestrutura editorial, pode perder parte de seu valor.
Para publishers, portanto, a questão envolve tanto normalização quanto tecnologia. O registro científico precisa acompanhar a própria transformação da pesquisa.
E a inteligência artificial?
Os modelos de inteligência artificial acrescentam uma camada de complexidade. Sistemas de IA já são utilizados para auxiliar análises, gerar códigos, explorar literatura e apoiar diferentes etapas metodológicas.
Há, porém, diferenças entre citar uma publicação sobre determinado modelo, informar que uma ferramenta foi utilizada e atribuir a ela uma contribuição intelectual equivalente à de um autor. Essas situações não deveriam ser tratadas da mesma maneira.
Mais importante do que criar rapidamente uma regra universal é garantir transparência. Em determinados contextos, registrar a ferramenta, a versão do modelo, a data de utilização e a finalidade do uso pode ser essencial para compreender como o resultado foi produzido.
De bibliografia a mapa da pesquisa
A tendência aponta para uma mudança conceitual. A bibliografia poderá deixar de ser apenas uma lista da literatura consultada para funcionar como um mapa dos elementos que sustentam uma investigação.
Artigos poderão estar relacionados a conjuntos de dados; dados, a softwares; softwares, a versões específicas; pesquisadores, a identificadores persistentes. Essa rede oferece uma visão mais precisa de como o conhecimento é produzido, reutilizado e transformado.
Para periódicos e publishers, o desafio é acompanhar essa mudança sem tornar o processo de citação excessivamente complexo. Para pesquisadores, trata-se de reconhecer que transparência também significa documentar adequadamente as ferramentas e recursos utilizados.
As referências bibliográficas não estão perdendo importância. Estão mudando de natureza. À medida que a ciência se torna mais digital, modular e colaborativa, citar corretamente deixa de ser apenas uma convenção editorial. Torna-se parte da infraestrutura que permite rastrear, reconhecer e, quando possível, reproduzir o conhecimento científico.
Palavra do CEO
“Periódicos que ainda pedem apenas lista de referências no formato ABNT ou APA estão olhando para a ciência de ontem. A pesquisa contemporânea usa dados de terceiros, roda em softwares específicos, depende de versões exatas de modelos computacionais. Se essas informações não estão nas referências, parte do método está invisível. Na Zeppelini, já recebemos periódicos que querem atualizar suas instruções aos autores e descobrem que o problema é maior: seus sistemas de submissão e produção não foram construídos para processar esses objetos. Minha recomendação: antes de reescrever o guia de estilo, mapeie toda a infraestrutura editorial. A norma nova não serve de nada se o sistema não consegue publicá-la corretamente.”
Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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