O pesquisador como marca: por que cientistas precisam aprender comunicação digital? – Et al. #378

Durante décadas, a reputação acadêmica foi construída quase exclusivamente pela produção científica, pela qualidade das pesquisas e pelo reconhecimento obtido dentro da própria comunidade acadêmica. Publicar em periódicos relevantes, acumular citações e participar de eventos especializados eram considerados caminhos suficientes para consolidar uma trajetória de destaque. No entanto, o ambiente científico mudou profundamente. Com a hiperconectividade e a circulação instantânea da informação, a visibilidade do pesquisador tornou-se tão estratégica quanto a visibilidade de seus artigos.

A ciência continua sendo avaliada por critérios rigorosos de qualidade e impacto. Contudo, a capacidade de comunicar descobertas, dialogar com diferentes públicos e construir presença digital passou a influenciar oportunidades de colaboração, captação de recursos, reconhecimento institucional e alcance social das pesquisas. Produzir conhecimento relevante já não basta. É preciso garantir que ele seja encontrado, compreendido e valorizado.

Essa transformação não deve ser vista como uma simples adaptação às redes sociais. Trata-se de uma resposta às novas dinâmicas de circulação do conhecimento. Hoje, gestores universitários, agências de fomento, jornalistas e potenciais parceiros internacionais frequentemente conhecem pesquisadores por meio de sua presença digital antes mesmo de acessar seus artigos científicos.

Nesse cenário, o conceito de “pesquisador como marca” ganha relevância. O termo pode causar desconforto em ambientes tradicionalmente resistentes à lógica do marketing. Entretanto, não se trata de transformar cientistas em influenciadores digitais, mas de reconhecer que reputação, credibilidade e autoridade científica também são construídas nos espaços digitais. A marca de um pesquisador corresponde à percepção pública de sua expertise e de sua contribuição para determinado campo do conhecimento.

Entre as plataformas mais importantes nesse processo está o LinkedIn. Originalmente associado ao mercado corporativo, o ambiente tornou-se um espaço relevante para networking acadêmico. Pesquisadores utilizam a plataforma para divulgar publicações, apresentar projetos, compartilhar análises e estabelecer conexões internacionais. Para muitos profissionais, o LinkedIn passou a funcionar como uma vitrine dinâmica de competências e realizações científicas.

Ao lado das redes profissionais, ferramentas voltadas para a gestão da identidade acadêmica tornaram-se indispensáveis. O ORCID é um dos exemplos mais bem-sucedidos. Ao fornecer um identificador digital único para cada pesquisador, reduz ambiguidades relacionadas a nomes semelhantes e facilita a integração entre bases de dados, periódicos e instituições. Manter um perfil atualizado deixou de ser diferencial para se tornar uma necessidade.

Outras plataformas também ampliam a visibilidade científica. O ResearchGate, por exemplo, permite compartilhar publicações, acompanhar métricas de interesse e interagir com pesquisadores de diferentes países. Já o Google Scholar consolidou-se como ferramenta essencial para monitoramento de impacto acadêmico, facilitando o acompanhamento de citações e a visualização da trajetória científica de autores e grupos de pesquisa.

Construção reputacional

Em paralelo, cresce a importância da divulgação científica como elemento de construção reputacional. Artigos técnicos continuam sendo a principal forma de comunicação entre especialistas, mas a sociedade demanda cada vez mais acesso aos resultados das pesquisas que financia. Pesquisadores capazes de traduzir conceitos complexos para uma linguagem acessível ampliam o impacto social de seu trabalho e fortalecem a legitimidade da ciência.

Esse movimento ganhou força após a pandemia de Covid-19, quando cientistas passaram a ocupar espaços inéditos na mídia e nas redes sociais. A experiência demonstrou que a comunicação científica não é apenas uma atividade complementar. Ela influencia diretamente a confiança pública na ciência e a capacidade de enfrentar a desinformação.

Entretanto, a valorização da presença digital também traz desafios. A busca por visibilidade pode gerar distorções quando métricas de engajamento passam a competir com critérios de qualidade científica. Existe o risco de que a lógica da popularidade substitua a da relevância acadêmica, favorecendo conteúdos excessivamente simplificados ou apresentados de forma sensacionalista.

Por isso, a construção de reputação digital exige equilíbrio entre visibilidade e responsabilidade. A autopromoção não deve ser confundida com exibicionismo acadêmico. Divulgar pesquisas, apresentar resultados e comunicar realizações são práticas legítimas quando realizadas com transparência, precisão e compromisso ético.

Talvez o principal desafio seja compreender que presença digital não significa apenas estar online. Significa construir uma identidade científica coerente, confiável e alinhada aos valores da pesquisa. Portanto, pesquisadores que conseguem combinar excelência acadêmica com comunicação eficaz ampliam sua projeção individual e a capacidade de suas instituições influenciarem a sociedade.

A ciência continua sendo produzida nos laboratórios, centros de pesquisa e nas universidades. Mas sua relevância será cada vez mais determinada pela capacidade de ocupar os espaços digitais onde o conhecimento circula, é debatido e encontra novos públicos. O pesquisador do século XXI não precisa se tornar uma celebridade. Precisa, acima de tudo, tornar-se visível de forma estratégica, ética e consistente.

PALAVRA DO CEO

Na Zeppelini, acompanhamos, há 26 anos, a evolução do ecossistema editorial científico, e uma coisa ficou clara: visibilidade científica não é acidente. É resultado de processo. Neste artigo, levantamos um ponto legítimo ao defender que pesquisadores precisam ocupar os espaços digitais onde o conhecimento circula. Há, porém, uma dimensão que não pode ser subestimada: a qualidade da entrega editorial que está por trás de cada publicação é o que dá substância à presença digital de qualquer pesquisador ou periódico.

Vale também um alerta prático: plataformas como o ResearchGate, frequentemente recomendadas para ampliar a visibilidade, estão no centro de disputas relevantes com editoras por compartilhamento de artigos sem autorização. Ignorar esse risco pode colocar em xeque não apenas a reputação do pesquisador, mas também a integridade do periódico que o publica.

Um artigo mal diagramado, publicado fora dos padrões de metadados ou sem conformidade com as exigências de indexação não ganha visibilidade, não importa quantas postagens o autor faça no LinkedIn. A marca do pesquisador começa no rigor da produção editorial do periódico que o publica.

Marcio Zeppelini, CEO da Zeppelini Publishers

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