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Preprints e revisão por pares: estamos caminhando para o fim do modelo tradicional? — Et al. #369

Por Zeppelini Editorial 25 maio 2026 6 min de leitura
Preprints e revisão por pares: estamos caminhando para o fim do modelo tradicional? — Et al. #369

A expansão dos preprints não é apenas um fenômeno quantitativo; ela altera, de forma estrutural, a temporalidade da ciência. Ao permitir a divulgação quase imediata de resultados, esse modelo desloca o eixo da comunicação científica: o que antes era mediado pela validação prévia passa a circular antes mesmo da revisão formal. Para os periódicos, isso representa uma mudança de fluxo e de lógica.

A pergunta a se fazer, portanto, não é trivial: se o conhecimento já está disponível antes da avaliação por pares, qual passa a ser o papel do periódico?

Tradicionalmente, a revisão por pares funcionou como um filtro de qualidade e credibilidade. No entanto, o tempo necessário para esse processo tem sido cada vez mais questionado, especialmente em áreas onde a velocidade da informação impacta diretamente decisões públicas, políticas e tecnológicas. Preprints respondem a essa demanda por agilidade, mas introduzem um novo tipo de risco: a circulação de resultados ainda não validados.

O tensionamento entre rapidez e qualidade não se resolve por simples escolha de um modelo em detrimento do outro. Trata-se, na prática, de uma reconfiguração das etapas de validação científica.

Hoje, já é possível observar mudanças concretas nesse equilíbrio. A leitura e a citação de preprints antes da publicação formal tornaram-se mais frequentes, indicando uma antecipação do consumo de resultados científicos. Paralelamente, comunidades científicas passaram a atuar como instâncias informais de revisão, influenciando a validação do conhecimento em tempo real.

A partir desse movimento, os periódicos deixam de ocupar exclusivamente o papel de primeiro ponto de acesso à informação e passam a se consolidar como certificadores de qualidade e confiabilidade. Soma-se a isso a crescente pressão por decisões editoriais mais rápidas, que redefine o ritmo tradicional da avaliação por pares e impõe novos desafios à governança editorial.

Esse cenário desloca a revisão por pares de um papel exclusivamente pré-publicação para um processo mais distribuído, e, em alguns casos, contínuo.

A revisão pós-publicação, com isso, ganha protagonismo. Comentários públicos, análises independentes e discussões abertas complementam, ou até tensionam, o parecer formal emitido por revisores convidados. O conhecimento deixa de ser validado em um único momento para ser constantemente reavaliado.

Mas essa abertura traz desafios que ainda estão longe de serem resolvidos. A participação é desigual, nem sempre qualificada, e frequentemente invisível nos sistemas tradicionais de reconhecimento acadêmico. Além disso, a ausência de mediação editorial pode amplificar ruídos, interpretações equivocadas ou disputas pouco produtivas.

Para que a revisão pós-publicação se consolide como prática legítima, alguns pontos ainda precisam avançar:

  • Estruturas formais para registro e curadoria de comentários científicos.
  • Mecanismos de reconhecimento e crédito para revisores pós-publicação.
  • Integração entre plataformas de preprints e sistemas editoriais.
  • Diretrizes claras para moderação e qualidade das contribuições abertas.

Sem esses elementos, o risco é substituir um modelo estruturado por um ambiente fragmentado e de difícil governança.

Outro efeito relevante do crescimento dos preprints está na forma como a credibilidade é construída. Se antes ela era fortemente associada ao periódico, a partir de seu prestígio, indexação e fator de impacto, agora passa a depender também da visibilidade, discussão e recepção do trabalho em estágio inicial.

Isso abre espaço para novas métricas, ainda em consolidação, que procuram avaliar não apenas a publicação em si, mas também sua circulação e influência ao longo do tempo. O engajamento em plataformas abertas, medido por downloads, comentários e compartilhamentos, passa a ganhar relevância nesse processo.

Ao mesmo tempo, cresce a atenção sobre a velocidade de disseminação dos resultados científicos e seu alcance em diferentes comunidades. A repercussão em redes acadêmicas e não acadêmicas também começa a ser considerada, assim como as sucessivas atualizações, revisões e desdobramentos do próprio trabalho após sua divulgação inicial.

Tais indicadores ampliam a compreensão de impacto, mas também introduzem volatilidade e suscetibilidade a dinâmicas externas à qualidade científica.

Para editores e publishers, o desafio é particularmente complexo. Ignorar os preprints significa perder relevância em um ecossistema que se move cada vez mais rápido. Incorporá-los, por outro lado, exige repensar processos, critérios e até o próprio valor agregado da publicação formal.

Nova realidade

Algumas revistas já experimentam modelos híbridos, nos quais a submissão parte de um preprint, a revisão ocorre de forma mais aberta e os pareceres passam a integrar o registro público do artigo. Não se trata, necessariamente, de substituir o modelo tradicional, mas de adaptá-lo a uma nova realidade de circulação do conhecimento.

A ideia de “fim” da revisão por pares, portanto, parece precipitada. O que está em curso é algo mais sutil, e talvez mais profundo: a redistribuição de suas funções ao longo do ciclo de vida da pesquisa.

A validação não desaparece, mas deixa de ser concentrada. A autoridade não se extingue, mas se torna mais difusa. E o periódico, longe de perder relevância, é desafiado a redefinir seu papel em um sistema onde publicar já não é mais sinônimo de tornar público.

A questão central, para o futuro próximo, não será escolher entre preprints ou revisão por pares. Será decidir como integrar ambos de forma coerente, preservando o rigor sem comprometer a velocidade.

E, sobretudo, reconhecer que o modelo tradicional não está sendo substituído, está sendo pressionado a evoluir.

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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.

Imagem: vector4stock / Magnific

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