A ciência aberta deixou de ser apenas um movimento aspiracional para se tornar um eixo estruturante das políticas científicas globais. No entanto, entre o discurso institucional e a prática editorial cotidiana, persiste um descompasso que merece atenção crítica. Muitos periódicos já incorporaram diretrizes formais relacionadas à transparência, mas poucos avançaram de fato na operacionalização consistente desses princípios.
O problema não é mais conceitual, é infraestrutural, cultural e, sobretudo, editorial.
A adoção de dados abertos, por exemplo, ainda é tratada como recomendação periférica em grande parte das revistas. Mesmo quando há exigência de disponibilização, faltam critérios claros de curadoria, padronização e verificação. O resultado é um cenário em que os dados são, por vezes, formalmente “abertos”, mas, na prática, permanecem inutilizáveis.
Para avançar, periódicos precisam sair da lógica declaratória e enfrentar decisões operacionais concretas:
- Definir padrões mínimos para depósito de dados (formatos, metadados, reprodutibilidade).
- Integrar repositórios confiáveis ao fluxo editorial.
- Estabelecer mecanismos de checagem, ainda que amostrais, da consistência dos datasets.
- Reconhecer formalmente o valor dos dados como produto científico citável.
Sem isso, a abertura de dados corre o risco de se tornar apenas mais um item de conformidade, e não um instrumento de avanço científico. O mesmo ocorre com o peer review aberto. Embora amplamente debatido, ele ainda é adotado de forma tímida e, muitas vezes, superficial.
Tornar pareceres públicos ou revelar identidades de revisores são medidas importantes, mas não suficientes. A revisão aberta exige uma mudança mais profunda: transformar o processo de avaliação em um espaço de diálogo qualificado, e não apenas de validação.
Nesse sentido, alguns pontos ainda negligenciados incluem:
- A formação de revisores para atuar em ambientes transparentes.
- A criação de incentivos reais para revisões assinadas e de qualidade.
- A mediação editorial ativa para evitar conflitos e assimetrias de poder.
- A preservação dos pareceres como parte integrante do registro científico.
Sem essas camadas, o risco é que o peer review aberto se limite a uma exposição formal, sem ganho efetivo em qualidade ou accountability.
Outro campo onde a lacuna entre intenção e prática é evidente é o dos preprints. Apesar da crescente aceitação, muitos periódicos ainda tratam preprints como exceção tolerada, e não como parte orgânica do ecossistema científico. Falta, sobretudo, integração de fluxos.
Poucos editores exploram, por exemplo, o potencial dos preprints como etapa inicial de avaliação aberta, ou como mecanismo para ampliar a diversidade de pareceres antes da submissão formal. Em vez disso, mantém-se uma lógica paralela: o preprint existe, mas não conversa com o sistema editorial. Esse distanciamento revela uma questão central: a ciência aberta não se implementa por adição de políticas, mas por redesenho de processos.
Para editores e publishers, isso implica enfrentar desafios concretos, muitas vezes subestimados, como as limitações tecnológicas das plataformas editoriais; as pressões por eficiência e redução de tempo de publicação; a resistência de autores e revisores a mudanças culturais; e a falta de recursos para investir em inovação editorial. Ignorar essas barreiras não as elimina, apenas prolonga uma adoção desigual e fragmentada.
O ponto crítico, portanto, não é mais “se” os periódicos devem adotar práticas de ciência aberta, mas “como” fazê-lo de maneira consistente, sustentável e alinhada à sua missão científica. Isso exige liderança editorial, investimento institucional e, sobretudo, disposição para rever rotinas historicamente naturalizadas.
A ciência aberta, em sua essência, propõe uma mudança de paradigma: da ciência como produto fechado para a ciência como processo compartilhado. Mas essa transição não acontece automaticamente. Ela depende de escolhas editoriais concretas, muitas delas ainda pendentes.
Enquanto essas escolhas não forem enfrentadas com a devida profundidade, a ciência aberta seguirá avançando, mas de forma desigual, incompleta e, em alguns casos, apenas simbólica. E talvez essa seja a principal questão para os periódicos hoje: não se posicionar a favor da abertura, mas demonstrar, na prática, o que isso realmente significa.
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
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