No debate contemporâneo sobre comunicação científica, fala-se com frequência em acesso aberto, internacionalização e integridade da pesquisa. Menos visível, porém igualmente decisiva, é a camada algorítmica que organiza, classifica e distribui o conhecimento produzido.
Hoje, boa parte do que se entende por “ciência relevante” não é apenas resultado de mérito acadêmico, mas também de critérios automatizados que operam nos bastidores dos sistemas de indexação. A ausência de transparência nesses mecanismos levanta uma questão estratégica para editores, publishers e universidades: quem, afinal, define o que merece ser visto?
Os sistemas de indexação desempenham um papel central na circulação do conhecimento. Eles funcionam como filtros que determinam quais periódicos serão mais facilmente encontrados, citados e, por consequência, valorizados em avaliações institucionais. Embora frequentemente apresentados como neutros e técnicos, esses sistemas incorporam escolhas, e toda escolha carrega consigo um conjunto de valores, prioridades e, inevitavelmente, exclusões.
Um dos pontos mais sensíveis diz respeito aos critérios de inclusão. Exigências relacionadas à periodicidade, internacionalização, idioma, composição de corpo editorial e métricas de citação são, em princípio, justificáveis como indicadores de qualidade. No entanto, quando aplicadas de forma homogênea a contextos profundamente desiguais, essas regras podem reforçar assimetrias históricas.
Periódicos emergentes, especialmente aqueles vinculados a instituições menores ou a agendas de pesquisa localizadas, enfrentam dificuldades estruturais para atender a tais padrões. Não necessariamente por falta de rigor científico, mas por limitações de recursos, redes e visibilidade.
Além disso, há um elemento menos tangível, porém igualmente relevante: o viés algorítmico. Sistemas automatizados aprendem a partir de padrões consolidados. Se determinados temas, regiões ou idiomas já são mais citados e mais presentes nas bases de dados, tendem a ser ainda mais recomendados, indexados e destacados.
Cria-se, assim, um ciclo de retroalimentação: o que já é visível se torna mais visível; o que está à margem permanece marginal. Nesse processo, a diversidade epistemológica, que deveria ser uma das forças da ciência, corre o risco de ser silenciosamente comprimida.
Esse fenômeno tem implicações diretas na produção científica periférica. Pesquisadores e editores passam a ajustar suas agendas, formatos e até objetos de estudo para se adequarem ao que os sistemas privilegiam. Temas locais, estudos aplicados ou abordagens interdisciplinares podem ser preteridos em favor de tópicos mais alinhados a tendências globais dominantes.
A consequência não é apenas editorial, mas cognitiva: perde-se a capacidade de produzir conhecimento enraizado em realidades específicas, em nome de uma suposta universalidade que, na prática, reflete centros de poder acadêmico.
Para editores de periódicos, esse cenário impõe um dilema constante. De um lado, a necessidade de atender a critérios que garantam indexação e visibilidade. De outro, o compromisso com a missão científica, que inclui dar voz a agendas emergentes, contextos regionais e perspectivas críticas. A gestão editorial, nesse sentido, deixa de ser apenas técnica e passa a ser também política, no melhor sentido do termo, como escolha consciente de posicionamento no ecossistema científico.
Transparência algorítmica
A questão da transparência algorítmica surge, então, como um imperativo. Não se trata de rejeitar sistemas de indexação, mas de compreender seus mecanismos, limites e impactos. Quais são os critérios efetivos de priorização? Como são ponderadas métricas quantitativas e qualitativas? Que tipos de produção tendem a ser excluídos — e por quê? Sem respostas claras a essas perguntas, a comunidade científica opera sob regras parcialmente invisíveis, o que dificulta tanto a crítica quanto a adaptação estratégica.
Universidades e publishers têm um papel fundamental nesse debate. Mais do que orientar pesquisadores sobre “como publicar melhor”, é necessário promover letramento crítico sobre os sistemas que mediam a visibilidade científica.
Isso inclui formar editores capazes de interpretar indicadores com cautela, desenvolver políticas editoriais que equilibrem exigências externas e identidade institucional, e incentivar práticas que ampliem a circulação do conhecimento para além dos circuitos mais tradicionais.
Há, também, espaço para inovação. Iniciativas que valorizem métricas mais inclusivas, que considerem impacto social, relevância local e diversidade temática, podem contribuir para tensionar o modelo vigente. Da mesma forma, estratégias de cooperação entre periódicos, especialmente em contextos periféricos, podem fortalecer redes de visibilidade alternativas, reduzindo a dependência de critérios centralizados.
No fundo, a discussão sobre transparência algorítmica é uma discussão sobre poder. Quem define os parâmetros de relevância científica? Quais vozes são amplificadas e quais permanecem inaudíveis? Ao trazer essas questões à tona, editores, publishers e universidades qualificam suas práticas e acabam participando ativamente da construção de um sistema científico mais equitativo.
A ciência sempre foi, em alguma medida, um processo de curadoria. O que muda agora é que parte dessa curadoria está delegada a sistemas automatizados, cujas lógicas nem sempre são explícitas. Torná-las visíveis é o primeiro passo para que a comunidade científica possa, de fato, deliberar sobre os rumos da produção e da circulação do conhecimento.
Entre métricas e rankings, talvez a maior responsabilidade institucional seja justamente não perder de vista aquilo que não cabe nos algoritmos: a pluralidade, a relevância contextual e o compromisso público da ciência.
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(*) Fundada em 2000, a Zeppelini Publishers atua no segmento editorial técnico e científico, atendendo empresas e organizações e desenvolvendo estratégias para todas as áreas da produção de publicações impressas e online.
Imagem: Daniil Komov / Pexels