A revisão por pares permanece como um dos pilares mais importantes da comunicação científica. É por meio dela que a literatura acadêmica busca assegurar rigor metodológico, consistência argumentativa e relevância das contribuições publicadas.
Apesar dessa centralidade, um paradoxo persiste no sistema científico: número considerável de pesquisadores aprende a revisar artigos de maneira informal, sem treinamento estruturado ou orientação sistemática. O resultado é uma prática essencial para a ciência que, em muitos casos, ainda depende mais da experiência individual do que de processos formativos institucionalizados.
Nesse contexto, universidades e agências de fomento têm um papel estratégico na construção e consolidação de uma cultura de revisão qualificada. Se a produção científica exige formação metodológica, ética e técnica, é razoável esperar que a avaliação dessa produção também seja objeto de capacitação.
Mas ainda não é o que acontece. A formação de revisores permanece relativamente marginal nos programas de pós-graduação e nas políticas de ciência e tecnologia. Estudos s recentes indicam que a maioria dos pesquisadores nunca recebeu treinamento formal em revisão por pares e que as oportunidades estruturadas de capacitação ainda são limitadas no ecossistema da comunicação científica.
Pesquisa publicada na plataforma PubMed, por exemplo, evidenciou esse cenário. Segundo ela, 84,2% dos pesquisadores da área biomédica consultados disseram que nunca haviam recebido treinamento formal em revisão por pares. A maioria deles (75,7%) concordou que os revisores deveriam passar por treinamento formal em revisão por pares antes de atuar como avaliadores.
Para muitos pesquisadores em início de carreira, o primeiro convite para revisar um artigo chega sem qualquer orientação prévia. A expectativa implícita é que a experiência acumulada como autor seja suficiente para desempenhar a função de avaliador.
Embora a vivência como pesquisador seja, sem dúvida, um elemento importante, ela não substitui a compreensão das responsabilidades editoriais envolvidas no processo de revisão.
Avaliar um manuscrito exige mais do que identificar falhas metodológicas ou sugerir melhorias no texto: envolve reconhecer limites de escopo, respeitar confidencialidade, evitar vieses e produzir pareceres que contribuam efetivamente para o aprimoramento da pesquisa.
É justamente nesse ponto que as universidades podem exercer liderança. Programas de pós-graduação, escolas doutorais e centros de pesquisa têm condições privilegiadas para incorporar treinamentos formais em revisão por pares em suas atividades acadêmicas. Workshops, disciplinas optativas ou módulos específicos sobre comunicação científica podem abordar aspectos fundamentais do processo editorial.
Entre os temas que podem compor programas de formação de revisores, destacam-se:
Algumas iniciativas internacionais já demonstram o impacto positivo desse tipo de formação. Programas de treinamento conduzidos por universidades e editoras científicas indicam que revisores treinados tendem a produzir avaliações mais estruturadas, equilibradas e úteis para autores e editores. Além disso, a capacitação contribui para reduzir problemas recorrentes no sistema de revisão, como pareceres excessivamente superficiais, comentários pouco claros ou avaliações marcadas por julgamento pessoal.
As agências de fomento também podem desempenhar um papel decisivo nesse processo. Ao financiar pesquisas, elas apoiam a geração de conhecimento e ajudam a moldar as práticas que sustentam o ecossistema científico. Iniciativas de capacitação de revisores, incluindo programas de treinamento, plataformas educacionais ou certificações reconhecidas, podem fortalecer a qualidade da avaliação científica em diferentes níveis.
Uma possibilidade promissora é a criação de certificações em revisão por pares, reconhecidas por agências de fomento e instituições acadêmicas. Esses certificados poderiam atestar que o pesquisador recebeu formação básica em práticas editoriais, ética da revisão e elaboração de pareceres técnicos. Mais do que um selo simbólico, esse tipo de certificação pode contribuir para valorizar a atividade de revisão, frequentemente tratada como um trabalho invisível no currículo acadêmico.
A valorização institucional da revisão também é um ponto crítico. Embora revisores desempenhem uma função fundamental para a integridade da ciência, essa atividade raramente recebe reconhecimento formal em processos de avaliação acadêmica ou em relatórios de produtividade científica. Universidades e agências de fomento podem contribuir para mudar esse cenário ao reconhecer a revisão por pares como parte integrante da responsabilidade científica.
Outro aspecto relevante é a integração entre editores, publishers e instituições de pesquisa na construção de programas de capacitação. Periódicos científicos acumulam vasta experiência prática sobre o funcionamento da revisão por pares, enquanto universidades possuem infraestrutura educacional e contato direto com pesquisadores em formação. A colaboração entre esses atores pode gerar programas mais robustos, combinando conhecimento editorial e práticas pedagógicas.
Confiança fortalecida
Além de melhorar a qualidade dos pareceres, a formação de revisores também contribui para fortalecer a confiança no sistema de publicação científica. Em um contexto marcado por aumento do volume de submissões, pressão por produtividade e crescimento de periódicos predatórios, a revisão por pares qualificada torna-se ainda mais relevante. Revisores preparados ajudam editores a tomar decisões mais consistentes e contribuem para manter padrões elevados de qualidade editorial.
Há ainda um efeito cultural importante. Quando a revisão é tratada como competência acadêmica que pode – e deve – ser desenvolvida, ela deixa de ser vista apenas como uma obrigação ocasional e passa a ser reconhecida como parte da prática científica. Esse movimento ajuda a formar uma geração de pesquisadores que compreende a revisão não somente como mecanismo de controle, mas como processo colaborativo de aprimoramento do conhecimento.
Para editores e publishers, apoiar iniciativas de formação de revisores também representa um investimento estratégico. A qualidade do sistema de revisão depende diretamente da comunidade que o sustenta. Quanto mais preparados estiverem os avaliadores, maior será a consistência das decisões editoriais e a credibilidade dos periódicos.
No longo prazo, fortalecer a formação de revisores significa fortalecer a própria infraestrutura intelectual da ciência. Universidades e agências de fomento reúnem condições únicas para liderar esse processo, integrando treinamento, reconhecimento e incentivo institucional. Ao fazer isso, contribuem para melhorar a qualidade dos periódicos científicos e para consolidar uma cultura acadêmica baseada em avaliação crítica, responsabilidade coletiva e compromisso com a integridade da pesquisa.
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