A longevidade e a credibilidade de uma revista científica raramente são frutos do acaso. Elas resultam de decisões editoriais consistentes, governança transparente, práticas éticas sólidas e lideranças capazes de sustentar padrões elevados ao longo do tempo.
Paradoxalmente, muitas revistas ainda estruturam sua identidade em torno de uma única figura editorial, geralmente um editor-chefe altamente experiente e centralizador. Embora esse modelo gere estabilidade no curto prazo, ele carrega riscos relevantes para a continuidade institucional, a qualidade científica e a reputação da publicação.
A dependência excessiva de uma liderança única cria vulnerabilidades silenciosas. A saída inesperada desse editor pode provocar desorganização operacional, perda de memória institucional, rupturas na política editorial e queda de desempenho nos indicadores de qualidade.
Em um ambiente de avaliação cada vez mais rigoroso, composto por indexadores internacionais, agências de fomento e sistemas de classificação, qualquer instabilidade editorial tende a impactar negativamente a confiabilidade da revista.
Planejar a sucessão, portanto, não é uma tarefa administrativa secundária, mas uma estratégia de sustentabilidade científica. Significa compreender a governança editorial como um sistema institucional, e não como a extensão de uma trajetória individual.
Quando e por que planejar?
O planejamento sucessório deve começar quando a liderança está estável e legitimada. Esperar sinais de desgaste ou iminência de saída costuma resultar em decisões apressadas, pouco transparentes e, muitas vezes, contestadas pela comunidade acadêmica. A sucessão exige tempo para formação, transferência de conhecimento, amadurecimento institucional e construção de legitimidade.
A complexidade crescente da comunicação científica, incluindo o aumento das submissões, a internacionalização, a integridade científica, as tecnologias editoriais e a profissionalização dos fluxos, reforça a necessidade de diluir a centralidade decisória. Nenhum editor consegue sustentar indefinidamente todas essas demandas sem gerar gargalos e dependências estruturais.
Formação de novos editores
Este procedimento ainda é, em muitas revistas, informal e baseado apenas na observação prática. Entretanto, o trabalho editorial exige competências específicas: gestão de processos, ética em publicação, avaliação por pares, ciência aberta, métricas, indexação, interoperabilidade de sistemas e governança de dados.
Programas estruturados de formação, com editorias associadas, participação progressiva em decisões estratégicas e mentoria, fortalecem a resiliência institucional e ampliam a diversidade de perspectivas. A sucessão deixa de ser uma substituição pontual e passa a ser um processo contínuo de aprendizagem organizacional.
Memória institucional
Muitas revistas operam com fluxos altamente dependentes do conhecimento tácito do editor-chefe. Critérios de triagem, políticas de conflito de interesse, estratégias de indexação e padrões de normalização frequentemente não estão formalizados.
A ausência de documentação compromete a consistência operacional e fragiliza a transição de lideranças. Manuais editoriais, fluxogramas e registros de decisões estratégicas aumentam a transparência, facilitam auditorias internas e asseguram maior estabilidade institucional. Documentar não significa engessar, mas criar uma base sólida para melhorias contínuas.
Transição sem perda de identidade
Uma transição bem planejada deve equilibrar continuidade e inovação. Preservar o escopo, os padrões de qualidade e os compromissos éticos é essencial para manter a confiança da comunidade científica. Mudanças abruptas podem gerar insegurança entre autores, revisores e indexadores.
Ao mesmo tempo, a sucessão é uma oportunidade para atualização de processos, incorporação de tecnologias e fortalecimento da inserção internacional. O desafio é conduzir essa evolução de forma gradual, participativa e transparente, com comunicação institucional consistente.
Impacto na avaliação institucional
Os sistemas de avaliação científica valorizam cada vez mais critérios relacionados à governança, estabilidade editorial, regularidade e integridade dos processos. Revistas dependentes de uma única liderança tendem a apresentar maior risco institucional.
Uma política explícita de sucessão sinaliza maturidade organizacional, compromisso com a perenidade do projeto editorial e capacidade de adaptação. Além disso, reduz a probabilidade de interrupções operacionais e inconsistências na avaliação de manuscritos, impactando positivamente os indicadores de desempenho.
Uma agenda necessária
Discutir planejamento sucessório é discutir a sustentabilidade da comunicação científica. Em um ambiente de rápidas transformações, a governança editorial precisa evoluir para modelos mais colaborativos, institucionais e resilientes.
Superar a centralização excessiva não diminui a liderança, mas amplia seu legado ao transformar conhecimento individual em patrimônio institucional. O sucesso editorial, hoje, mede-se por resultados imediatos e pela capacidade de garantir continuidade, qualidade e credibilidade no longo prazo.
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